Campo e Lavoura – Palavra do Especialista | Carlos Cogo – Afinal, podemos exportar alimentos sem provocar inflação?

Em nove dos últimos 10 anos, a inflação dos alimentos no Brasil superou o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), índice oficial do IBGE. Por que isso ocorre? Invariavelmente, a culpa tem sido colocada no clima. Explicação simplória demais. O clima não poderia ter provocado inflação de alimentos acima do índice geral por quase uma década inteira. De forma pontual, ora o clima provoca alta dos preços dos alimentos, diante das quebras das safras, ora provoca baixas – quando permite reduzir custos de produção e eleva a produtividade.

O Brasil é hoje o segundo maior exportador global de alimentos, atrás apenas dos Estados Unidos. Projeções consensuais da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e Embrapa indicam que, durante a próxima década, assumiremos o posto de maior exportador global de alimentos. Então, estaria nas crescentes exportações de grãos, carnes, açúcar, café, dentre outros, a culpa da inflação dos alimentos?

Se isso fosse verdade, os EUA, maior exportador global de alimentos, não teriam uma inflação anual de 0,3%. Vale destacar que o peso dos alimentos na inflação brasileira é de 25%, contra 11% a 14% nos países da União Europeia, EUA ou no Japão. A renda per capita maior nestes países reduz o peso dos alimentos na composição da inflação. A inflação geral e de alimentos decorre de uma conjugação de fatores, que podem atuar simultaneamente ou não, incluindo as altas taxas de juros, aumentos de preços administrados (energia, combustíveis etc.), incrementos de custos de produção e a indexação – processo no qual a alta de preços passada impulsiona os preços futuros.

Portanto, eliminados ou mitigados esses fatores, a tendência é de que os preços dos alimentos subam menos, acompanhando o índice geral de inflação. Sim, podemos ser grandes exportadores globais de alimentos, sem que isso provoque pressão inflacionária. Na esfera governamental, a redução da volatilidade excessiva dos preços dos alimentos pode ser combatida com uma política agrícola de longo prazo, linhas de investimentos permanentes para irrigação e mecanização, preços mínimos que cubram custos variáveis de produção e formação de estoques reguladores combinada com regras claras para intervenção nos mercados, seja na hora de compor e de ofertar essas reservas.

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Estamos longe disso. O Brasil administra as oscilações de preços dos alimentos com perfil de bombeiro: zerando alíquotas na importação, se desfazendo de estoques sem recompô-los, dentre outras pirotecnias, quase todas desastrosas no longo prazo.

Fonte : Zero Hora

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