CAMPO E LAVOURA | O que faz a soja alcançar patamar histórico em reais

No quesito preço, o ano de 2020 será daqueles lembrados por produtores de soja do Brasil. O grão alcançou valor nominal histórico no último dia 20: R$ 116,77 a saca, pelo indicador Esalq/BM&FBovespa de Paranaguá, no Paraná. No Rio Grande do Sul, onde a estiagem reduziu em mais de 40% a colheita, a marca foi além: R$ 118,71, aponta Lucilio Alves, pesquisador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP. Se considerada a correção, a maior cotação (na média mensal) foi registrada em 2012 (veja gráfico).

Há uma combinação de fatores que justificam e ajudam a sustentar a valorização atual em reais. A variação cambial tem sido o principal combustível – na Bolsa de Chicago, a commodity não tem grandes variações, com o bushel ficando na casa de US$ 9. Outro ponto importante na composição de preços para o produtor brasileiro é o prêmio pago – espécie de "bônus" pela alta procura.

– O fator que deu sustentação foi a boa demanda. Tivemos um mercado comprador ativo no primeiro semestre e no início do segundo. Isso enxugou estoques – afirma Alves.

O mercado de derivados (farelo e óleo de soja) também está aquecido, outro ponto considerado importante. E há a guerra comercial entre China e Estados Unidos. O capítulo mais recente, com o fechamento de consulados, pode ser negativo sobre a cotação futura, mas positivo no prêmio do grão brasileiro, observa o consultor em agronegócios Carlos Cogo:

– O chinês está brigando de um lado, e comprando de outro.

Ele lembra que o país asiático adquiriu soja americana. E continuou comprando "volumes enormes do Brasil" – no primeiro semestre, foi destino que abocanhou 72% da produção. Esse aumento do apetite denota a recomposição do rebanho, reduzido de forma substancial pela peste suína africana.

Com a maior parte da colheita já negociada, não são esperadas grandes variações de preço no segundo semestre, observa o pesquisador do Cepea. Cotações da safra futura, em dólares, apontam recuo de 9%. Em reais, o timoneiro será o câmbio.

gisele.loeblein@zerohora.com.br

GISELE LOEBLEIN

Fonte: Zero Hora

Compartilhe!