CAMPO E LAVOURA | O impacto da pandemia no consumo de leite e derivados

A instabilidade trazida pela pandemia faz o mercado de leite e derivados ser guiado pela volatilidade. O que vale hoje pode não valer amanhã. E a tarefa de projetar um cenário futuro ficou ainda mais complicada. A expectativa da indústria é de que o atual patamar de preços se mantenha pelos próximos meses, o que ajudaria na recuperação do setor. Com oferta e demanda, neste momento, reguladas, a definição virá do apetite.

– Quem vai dizer é o mercado – afirmou Alexandre Guerra, presidente do Sindilat-RS, live de GaúchaZH (mais abaixo).

Ao fator covid-19 somam-se questões como a estiagem (e seus impactos sobre a produção de leite) e poder de compra da população brasileira. Segundo Guerra, o pagamento do auxílio emergencial de R$ 600 beneficiou de forma direta o consumo de leite. Pesquisa da Nielsen mostra que houve crescimento. Na comparação com o ano passado, até 10 de maio, o aumento foi de 29,2% nos queijos, 17,6% no leite UHT e de 16,4% no em pó.

– Com o isolamento social, perdemos de início a linha food service (produtos para restaurantes, cozinhas, hotéis), ligada a eventos e turismo. Mas crescemos no consumo dos lares. As pessoas saem menos de casa e investem na qualidade de vida – avalia o dirigente.

O ajuste entre o que se produz e o que se vende veio com a ajuda de ingredientes temporários, como o recuo da importação de leite. O dólar alto tirou a competitividade de produtos vindos de outros países. Isso ao mesmo tempo em que a produção no Brasil estava no período de baixa.

Por outro lado, a falta de chuva impactou a vida dos produtores. A perda em quantidade e qualidade de milho silagem, usado na alimentação do rebanho, amplia os custos, porque exige que seja feita suplementação.

No mês passado, a projeção de recuo no valor de referência do litro de leite esquentou o debate na reunião do Conseleite. Entidades de produtores questionaram o fato de haver repasse do que acontece no mercado só quando há indicativo de baixa. Como o valor é calculado com base nos 10 primeiros dias e depois houve recuperação, o dado consolidado deve trazer mudanças. Que são esperadas por quem está no campo.

Adaptação à nova bandeira

Com sede e unidade produtiva em Carlos Barbosa, na Serra, a Cooperativa Santa Clara precisou fazer nova adequação por estar em região de bandeira vermelha. Diretor administrativo, Alexandre Guerra também falou sobre o assunto. Veja trechos

Qual o impacto da bandeira no funcionamento da unidade de Carlos Barbosa?

Com a mudança para vermelha, precisamos ter 75% das pessoas, não passando disso na questão da lotação. A cada dois metros, uma pessoa com todos os EPIs (equipamentos de proteção individual) é o limite no chão de fábrica.

O que vocês já tinham de cuidados e o que tiveram de adaptar com a pandemia?

Intensificamos o que já fazíamos. Incorporando mais ações para garantir saúde do trabalhador. No lar, no transporte, procuramos dar uma educação ao nosso trabalhador, para que siga todas as orientações. Demos quatro máscaras para cada trabalhador. No ônibus (que leva até a unidade), delimitamos uma pessoa a cada dois assentos. Ao chegar na indústria, fazemos medição de temperatura. No relógio de ponto, tiramos a digital e colocamos cartão, para não encostar o dedo. No refeitório, ampliamos horário de refeição e colocamos divisórias nas mesas. E, dentro das unidades, há troca de uniformes, divisórias e protetores faciais.

Quantos funcionários e qual o volume de leite que a cooperativa recebe por dia?

Nas três unidades, Getúlio Vargas, Casca e Carlos Barbosa, são 800 mil litros, em média. Em Carlos Barbosa, são 400 trabalhadores (só em laticínios). Em toda a cooperativa, são 2,2 mil.

Safras premiadas

Foi com o pé direito que a marca de azeite de oliva extravirgem Lagar H começou a colher os frutos do investimento iniciado há sete anos no Rio Grande do Sul. A produção (foto) está em área de 64 hectares cultivada com cerca de 16 mil oliveiras em Cachoeira do Sul, na Região Central. A primeira safra foi envasada neste ano e, de cara, ganhou medalha de ouro no EVO International Olive Oil Contest, da Itália, com quatro variedades. Outros cinco rótulos brasileiros, um deles gaúcho (leia mais abaixo), também receberam a distinção. E as duas produções do Estado são finalistas da melhor monovarietal do Hemisfério Sul.

– Foi a primeira vez, o primeiro concurso da vida – conta Glenda Haas, uma das fundadoras e diretora-geral da Lagar H.

Os 3,5 mil litros produzidos neste ano já foram comercializados. Com a produção cultivada nas Fazendas Irapuá, a marca (que remete ao sobrenome da família) deve dar outro passo: construir o próprio lagar (onde é feito o processamento do azeite). A ideia era poder fazer isso ainda em 2020. Em razão das restrições determinadas pela pandemia, o projeto precisou ser adiado. Glenda, que é advogada especialista em Direito Econômico e administradora, se preparou para estar à frente do projeto. Buscou formação nos Estados Unidos e na Itália. O cultivo começou em 2014 e, em 2019, veio a primeira colheita dos olivais. Mas foi neste ano que saiu a primeira leva do azeite, que acabou sendo premiada. Na propriedade, são cultivadas seis variedades. As premiadas no concurso, idealizado pelo agrônomo e consultor internacional italiano Antonio Lauro, são arbosana, coratina, koroneiki e arbequina.

– Entrar nesses concursos mostra que, embora a gente não tenha tradição, temos qualidade. Queremos ensinar o consumidor a fazer boas escolhas – avalia Glenda, sobre a premiação.

Distinção também à multipremiada

Com 76 premiações nacionais e internacionais no currículo, a marca Prosperato, resultado dos 280 hectares de olivais cultivados em Barra do Ribeiro, Caçapava do Sul, São Sepé e Sentinela do Sul, é uma veterana em concursos e teve dois rótulos premiados com a medalha de ouro. A variedade koroneiki ainda concorre na categoria de melhor varietal, e a blend premium, na de melhor blend do hemisfério sul. A safra de 2020 inclui distinções em concursos em Nova York e no Japão.

– As premiações servem para mostrar ao consumidor brasileiro que o produto tem essa diferença, são resultados constantes. As distinções que ganhamos no ano passado possibilitaram nossa primeira exportação para os Estados Unidos – diz Rafael Marchetti, um dos diretores da marca.

No radar

A Emater apresenta hoje o primeiro levantamento da safra de inverno. Os dados apontarão a estimativa de área a ser cultivada no Rio Grande do Sul. As projeções feitas até agora apontam aumento no espaço dedicado ao trigo, principal produto da estação. Cotações valorizadas, boa relação de troca entre custo e receita e a busca por renda depois da frustração com a colheita de verão são fatores apontados para essa expansão.

R$ 703,8 bi é o valo bruto da produção (VBP) agropecuária brasileira estimado pelo Ministério da Agricultura para 2020. É 8,5% acima do ano passado e o maior da série histórica, iniciada em 1989. A combinação de safra recorde e dólar em alta são fatores que impulsionam esse resultado – o faturamento das lavouras deve crescer 11%. Cenário diferente do Estado que, por conta da estiagem, tem recuo estimado de 8,9% na receita gerada pelo segmento.

GISELE LOEBLEIN

Fonte: Zero Hora

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *