CAMPO E LAVOURA – O fantasma que ronda a suspensão das exportações da carne argentina

É com uma paralisação marcada para começar amanhã, indo até o dia 28, que pecuaristas argentinos reagem à suspensão das exportações de carne por 30 dias anunciada pelo governo. Representantes de quatro das mais representativas entidades do setor (Coniagro, Sociedade Rural, Federação Agrária e Confederações Rurais Argentinas) decidiram pela mobilização após reunião da mesa de negociação criada. A preocupação vem do passado recente, em que medida semelhante teve consequências desastrosas para o setor.

A restrição parcial de embarques marcou as gestões de Néstor e Cristina Kirchner, entre 2006 e 2015. Conforme dado do Instituto de Estudos da Realidade Argentina e Sul-Americana publicado pelo jornal Clarín, o rebanho bovino reduziu de 58 milhões de cabeças para 48 milhões entre 2007 e 2011. Consumo interno e exportações também caíram.

– É curioso (a adoção da medida) porque já ocorreu antes e foi um fracasso. Funciona no curto prazo, mas no médio desestimula a produção. Houve redução de rebanho, abate, e a Argentina perdeu posições no mercado internacional da carne – relembra Fernando Velloso, da Assessoria Agropecuária FF Velloso & Dimas Rocha.

E esse é o fantasma que agora assombra produtores do país vizinho. A Argentina fechou 2020 como quinto maior exportador mundial de carne bovina, segundo o USDA, e teme nova perda de espaço. O presidente Alberto Fernández justificou a decisão dizendo que "o preço sobe mês a mês sem justificativa" e que é preciso "colocar ordem". Dados do Instituto de Promoção da Carne Bovina Argentina apontam alta de 65,3% em cortes de carne bovina no mês de abril.

– A decisão destrói a imagem da Argentina como fornecedor confiável e voltaremos a entregar os mercados a nossos principais competidores. E o pior, como mostrou a recente história do kirchnerismo, em nada irá contribuir para baixar os preços, especialmente no longo prazo – afirmou ao Clarín Daniel Pelegrina, presidente da Sociedade Rural Argentina.

Maior exportador global, o Brasil pode ganhar mais espaço.

– Não existe cadeira desocupada. Já fizeram isso no passado. O mundo enxergava a Argentina quando pensava em carne bovina. No momento em que abriram a brecha, o Brasil entrou nesse espaço. Hoje, o efeito não será tão grande porque já somos relevantes em quantidade e qualidade – diz Antônio da Luz, economista-chefe do Sistema Farsul.

gisele.loeblein@zerohora.com.br

GISELE LOEBLEIN

Fonte : Zero Hora

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