CAMPO E LAVOURA | Nuvem de gafanhotos deixa Estado em alerta

Como se os estragos da estiagem e os efeitos da pandemia não fossem suficientes, o Rio Grande do Sul se vê às voltas com uma preocupação que vem do céu argentino. O alerta feito pelas autoridades locais para uma nuvem de gafanhotos que vem percorrendo o país vizinho colocou o Estado em vigília e monitoramento.

Grupo de técnicos do Ministério da Agricultura, tanto da superintendência estadual quanto da sede, e da Secretaria Estadual da Agricultura trabalha conjuntamente para fazer o acompanhamento e elaborar protocolos caso a ameaça se confirme. Eles também observam mapas e informações compartilhados pelo Serviço Nacional de Sanidade e Qualidade Agroalimentar da Argentina (Senasa).

A informação era de que ontem estavam na região de Santa Fé, a 250 quilômetros da fronteira com o território gaúcho.

– É um risco que não deve ser ignorado – afirma Ricardo Felicetti, chefe da Divisão de Defesa Sanitária Vegetal da Secretaria da Agricultura.

A preocupação vem do potencial estrago que causam – se alimentam de vegetais. Na Argentina, causaram impacto em citros e hortaliças (ao lado, imagem em Lanteri, na província de Santa Fé).

A previsão do tempo traz um pouco de alento. Os prognósticos de frente fria, com queda de temperatura e chuva, a partir de amanhã, em tese, devem manter a nuvem longe do território gaúcho. Os gafanhotos "gostam" de tempo quente e seco.

– Fazia mais de 62 anos que não ocorria ataque de pragas em Corrientes. A nuvem percorreu o centro do país, depois passou por Assunción, no Paraguai, retornando por Formosa, Chaco e Corrientes – conta Martin Rapetti, conselheiro delegado da Confederação Rural da Argentina, que vive em Curuzu Cuatia, Corrientes.

A ameaça

Atende pelo nome popular de gafanhoto migratório sul-americano a ameaça vinda da Argentina. Monitoramento indica que seria essa a espécie (Schistocerca cancellata), que tem comportamento coletivo, em massas migratórias. A preocupação deve-se ao fato de que se alimenta de vegetais com um potencial de dano grande a lavouras e pastagens. Há relatos de que podem voar até cem quilômetros por dia.

Na Argentina, fala-se em população de 40 milhões de gafanhotos. Os estragos na produção devem começar a ser quantificados hoje conta o dirigente de federação argentina Martin Rapetti.

Os pontos de atenção no Rio Grande do Sul são áreas no Oeste/Noroeste e no Sul, na fronteira com o Uruguai. Em 2017, houve alerta semelhante, mas a nuvem acabou não chegando ao território gaúcho.

Fluxo na pandemia

O direcionamento da produção brasileira de proteína animal para a Ásia – especialmente à China – por si só é um quebra-cabeça logístico, para garantir fluxo aos contêineres refrigerados, usados para esse tipo de carga. Com a pandemia o desafio ficou ainda maior. Uma das gigantes empresas globais do segmento, a Maersk fez adaptações para conseguir cumprir contratos.

Em fevereiro, no auge da disseminação do vírus na China, a empresa chegou a contratar um navio para manter ligados os contêineres diante da paralisia não só no portos, mas também nas rodovias do país asiático.

– O contêiner chegava, mas não conseguia descarregar. Além do navio, também tivemos de desviar rotas – conta Jean Stoll, diretor global de Proteína da Maersk.

Outros recursos, como parcerias com frigoríficos locais – para estocar os produtos – e leasing de navios para retorno foram usados.

– Toda nossa malha logística foi revisada (a Maersk tem no portfólio os modais rodoviários e ferroviários). Até agora estamos com a situação sob controle. Mas evidentemente que o desafio continua – acrescenta Gustavo Paschoa, diretor comercial no Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai.

Outro efeito da pandemia é que os contêineres estão ficando mais tempo com o cliente (entre pegar, levar ao depósito, estufar e retornar ao porto). Em média, eram 13 dias. Hoje, são pelo menos cinco dias a mais. A inspeção feita no destino final também ficou mais demorada: em torno de sete dias, quando o normal são dois a três dias.

Retomada da praga em estudo

Tanto o Ministério da Agricultura quanto a Secretaria da Agricultura orientam que produtores fiquem atentos. Em caso de identificação da presença de gafanhotos em grande quantidade, devem informar à inspetoria de defesa agropecuária local.

As superintendências federais do ministério foram alertadas, em razão da área de fronteira do Brasil. Segundo a pasta, há registros da praga no Brasil desde o século 19. Entre 1930 e 1940 causou grandes perdas às lavouras de arroz na região sul do país. Depois disso, permaneceu em fase isolada, que não causa danos às lavouras. Mais recentemente, voltou a causar danos à agricultura na América do Sul com a formação de nuvens.

Especialistas avaliam fatores que possam ter contribuído para que essa recomposição da praga tenha sido retomada. Entre as hipóteses consideradas estão temperatura, índice pluviométrico e também dinâmica dos ventos.

No radar

O Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola (Sindag) se colocou à disposição do Ministério da Agricultura para auxiliar no controle da nuvem de gafanhotos, caso chegue ao Brasil. A sugestão foi encaminhada à ministra Tereza Cristina, acionada pelo deputado federal Jerônimo Goergen. O RS tem frota de 426 aeronaves agrícolas.

R$ 1,3721 é o valor de referência projetado para o litro de leite em junho no Estado. A quantia é 8,63% acima do consolidado de maio, indicando recuperação. Os dados foram divulgados ontem pelo Conseleite, que reúne indústria e produtores.

GISELE LOEBLEIN

Fonte: Zero Hora