CAMPO E LAVOURA | Nem todo preço valorizado foi capaz de fazer frente aos custos

Há mais coisas entre o preço e a renda do produtor do que supõem as cotações históricas dos produtos agrícolas em reais. É claro que a valorização é importante, principalmente em culturas há muito afetadas por desempenhos negativos. Mas quando o assunto é dinheiro no bolso, é preciso ir além do número do momento. Estudo apresentado pela Federação da Agricultura do Estado, parte do Projeto Campo Futuro, mostra que, no ciclo 2019/2020, o arroz foi o único produto em que se conseguiu cobrir o custo total (que considera também os juros de investimentos feitos). Fato que só foi possível com uma combinação singular de produtividade e valores elevados. E que representou a primeira margem positiva após cinco anos de prejuízos.

A avaliação foi feita em municípios de referência: para o arroz, Uruguaiana, e para o milho, soja e trigo, Carazinho.

Principal produto da pauta gaúcha, a soja resultou em margens maiores do que ano anterior, mas pelo segundo ano consecutivo, não foi possível cobrir o custo total. Reflexo da estiagem prolongada que reduziu em 23% a produtividade. E apesar da alta de preço, de iguais 23%. O estudo aponta que, se as cotações fossem semelhantes às do ciclo anterior, o resultado seria de margem bruta do grão.

– Esse preço de hoje poucos produtores conseguiram aproveitar, pela falta do produto. Como tinham contas a pagar, foram obrigados a comercializar – completa Ruy Silveira Neto, economista da Farsul.

No milho, o resultado da margem bruta foi muito baixo, praticamente empatando com o custo operacional (que leva em consideração insumos e depreciações, sem contar investimentos). Resultado da combinação de queda de 32% de produtividade, também decorrente da falta de chuva. Os preços subiram, mas não a ponto de compensar a perda e o adicional de que houve aumento em itens como fertilizantes e seguros e preços que, apesar de maiores, não fazem frente ao rendimento perdido por hectare.

Por outro lado, lavouras irrigadas conseguiram reduzir os efeitos da estiagem, com margens brutas positivas e cobertura do custo total.

A análise traz ainda dados dos últimos 10 anos, período em que os custos operacionais subiram 159% no arroz, 157% no milho, 178% na soja e 73% no trigo.

– O que se verifica é que a receita cresceu em ritmo menor do que o custo – observa o economista.

GISELE LOEBLEIN

Fonte: Zero Hora

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