CAMPO E LAVOURA – "Fermento" no custo não tira apetite pelo trigo no RS

O produtor gaúcho que decidiu cultivar trigo na última hora encontrou um cenário que segue sendo positivo. A relação de troca – ou seja, o número de sacas que precisa para cobrir o custo de produção – é a melhor desde 2014. Ainda assim, chama a atenção a velocidade do aumento nas despesas. Levantamento da Federação das Cooperativas Agropecuárias do Estado (Fecoagro-RS) mostra que no intervalo de apenas três meses, entre a primeira e a atual pesquisa, houve uma escalada dos gastos.

Cálculo feito com valores de 1º de junho apontam um custo total de R$ 4.305,01 por hectare, alta de 31,74% sobre igual período do ano passado – em valores nominais. Em 1º de março deste ano, quando saiu o primeiro dado, era de R$ 3.997,10, 21,7% sobre 2020.

– O que mais pesou nessa alta foi combustível, preço de máquinas, de químicos e da própria semente – explica o economista da Fecoagro Tarcísio Minetto.

Vale lembrar que muitos dos insumos são dolarizados, o que puxa essa alta. Por enquanto, as contas se mantêm favoráveis. No retrato capturado pela pesquisa, são necessárias 51,25 sacas por hectare para que o agricultor consiga cobrir o custo por hectare, considerando uma lavoura com rendimento de 60 sacas por hectare – a média estadual projetada pelo IBGE é de 50 sacas. Na safra passada, era preciso ter 61,66 sacas para conseguir pagar as despesas.

Esse fator, associado à boa rentabilidade do ciclo de verão, fez com que muitos produtores ampliassem área, voltassem a plantar e até mesmo a experimentar o cultivo da lavoura de trigo. Há ainda um outro fator a ser considerado. É a utilização desse e de outros cereais de inverno na ração animal. A opção vem para fazer frente à valorização do milho, e tem nas indústrias de carne as maiores interessadas.

Na estimativa mais recente da Rede Técnica de Cooperativas (RTC), a indicação era de área 14,2% superior à do ano passado, que somou 953,83 mil hectares, de acordo com o IBGE.

– Entendemos que esse o número (de área) é maior. Nossa expectativa é de que fique entre 15% e 20% acima do ano passado – diz Paulo Pires, presidente da Fecoagro-RS.

A aposta é de 1,1 milhão de hectares cultivados com trigo no Estado, extensão que não era atingida desde 2014. E que, se confirmada, pode fazer com que os gaúchos batam outra marca: a da produção total, que chegou a 3,35 milhões de toneladas em 2013. Claro, para isso, será preciso contar com outro aliado: o tempo. Por ora, a perspectiva é de que, depois da soja, o trigo poderá ter a maior colheita da história.

gisele.loeblein@zerohora.com.br

GISELE LOEBLEIN

Fonte : Zero Hora

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