CAMPO E LAVOURA – Efeitos do verão passado nas exportações do agronegócio

A conta da estiagem da última safra continua chegando para o Rio Grande do Sul. A restrição de oferta de produtos importantes da pauta, como soja e tabaco, impactou sobre o resultado das exportações do agronegócio no terceiro trimestre, quando recuou 14,5% em volume e 7,1% em receita. Os US$ 3 bilhões faturados são meio bilhão a menos do que em igual período de 2019. No acumulado até setembro, embora a quantidade embarcada tenha tido leve alta, de 1,6%, a receita caiu 8,7%. Os US$ 8,04 bilhões somados entre janeiro e setembro são o menor valor para o período desde 2010, aponta levantamento do Departamento de Economia e Estatística (DEE) da Secretaria de Planejamento.

Os números mostram dois momentos do ano. A soja (grão, farelo e óleo), por exemplo, teve crescimento de 3,8% em volume e de 2,8% em faturamento entre janeiro e setembro. No terceiro trimestre, aconteceu o oposto: caiu 17,5% nos dois quesitos. Ao lado de fumo e produtos florestais, registrou as maiores baixas no período.

– A queda ocorreu por falta de disponibilidade de produto – explica Sérgio Leusin Júnior, economista do DEE.

E não veio antes, porque os negócios foram sendo feitos enquanto tinha produto para vender. Se os preços na Bolsa de Chicago deixavam a desejar, a variação cambial e o prêmio pago pelo produto do Brasil inflacionavam as cotações em reais, que não pararam de subir.

Estoque existente da safra anterior, entrada da produção de 2020, ainda que em volume menor, e base fraca de comparação são fatores que ajudam a explicar o cenário de alta no acumulado do ano para as vendas externas de soja.

– Houve uma concentração nesses três trimestres. Até setembro, foi exportado 90,7% da safra do Rio Grande do Sul – acrescenta Leusin.

Daqui para a frente, a perspectiva é outra. E a projeção é de que o ano termine com diminuição de 10%.

A queda nas exportações de fumo (no terceiro trimestre e no acumulado o ano) também tem relação com a estiagem. Foi um dos problemas climáticos que afetou a produção.

Presidente do SindiTabaco, Iro Schünke acrescenta que, em meio à pandemia, houve dificuldades de navios para embarques e a postergação do início do envio à China. Na queda de receita, pesaram qualidade e preço médio de exportação em dólar inferior.

Indústria de carnes cria 5,2 mil vagas

Um dos destaques positivos nas exportações do agronegócio, a indústria de processamento de carnes também aparece como a que criou o maior número de vagas de trabalho no acumulado do ano, segundo o levantamento do Departamento de Economia e Estatística da Secretaria de Planejamento. No período até setembro, foram 5.219 posições das 7.969 criadas por todo o setor.

Segundo o relatório, este é o quarto ano seguido que frigoríficos assinalam alta nos empregos, com setembro registrando o recorde de vínculos ativos de toda a série histórica. A demanda firme do mercado externo é hoje a principal razão para a criação de oportunidades. A continuidade da abertura de vagas dependerá do fluxo das exportações e da velocidade de recuperação do mercado interno. No momento, a restrição de oferta em outras partes do Brasil beneficia a indústria gaúcha de carne bovina.

no radar

A China segue sendo o principal destino do frango brasileiro em 2020, mas nas exportações de outubro a Arábia Saudita teve destaque. Dados da Associação Brasileira de Proteína Animal mostram aumento de 22% no volume embarcado, que somou 44,9 mil toneladas no mês. O total da proteína exportado pelo Brasil foi de 319,7 mil toneladas, que representa queda de 9,4% sobre igual período de2019.

Diversidade premiada

Para os mais entendidos, pode até passar batido, mas entre os rótulos de destaque na Avaliação Nacional de Vinhos deste ano, chamam a atenção variedades de uva bem diferentes das tradicionais – e mais conhecidas do grande público. É o caso da touriga nacional, da tempranillo e da petit verdot, que faziam parte de uma das 16 amostras mais representativas da safra na categoria vinho fino tinto seco.

Produzido pela Seival, do Grupo Miolo, tinha ainda merlot, cabernet sauvignon e tannat na composição (seis castas, no total). A mistura conquistou o paladar do júri. E foi elaborada a partir de parreirais cultivadas na campanha gaúcha, explica o enólogo Miguel Almeida:

– Acreditamos muito nas castas pouco conhecidas, no potencial para criar complexidade. Vinhos de corte, compostos de mais de uma variedade de uva, tendem a ser mais complexos, mais longevos.

São mais de 40 castas cultivadas em cerca de mil hectares de vinhedos em quatro vinícolas do grupo: na Serra (Miolo), na Campanha (Seival e Almadém) e no Vale do Rio São Francisco, na Bahia (Terranova).

– Mais do que o tamanho, a maior fortaleza é a grande diversidade de lugares e hectares – diz o enólogo português, lembrando que os vinhedos estão em três biomas diferentes.

No rótulo premiado na avaliação, que leva a marca Sesmarias, a ideia era produzir um vinho que "fosse um ícone".

A petit verdot é uma variedade típica de Bordeaux, na França. A touriga nacional é típica de Portugal, e a tempranillo nasceu na Espanha. A lista de castas produzidas é longa. Sobre a qualidade da produção em 2020, Almeida observa:

– Acho que é obrigação todos os anos fazer a melhor das safras.

GISELE LOEBLEIN

Fonte : Zero Hora

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