Campo e Lavoura : Desafio das frutas exóticas é conquistar paladar dos consumidores

 

Novos sabores têm que cair no gosto dos brasileiros para que frutas tenham escala de produção

Desafio das frutas exóticas é conquistar paladar dos consumidores Gabriela Lain/Especial

Nestor Soga, de Caxias do Sul, cultiva três variedades de mirtilo mas, em 18 anos, já testou 45 tipos diferentesFoto: Gabriela Lain / Especial

Adaptar o cultivo de frutas exóticas a terrenos muitas vezes pouco favoráveis não é o único obstáculo que os produtores que apostam em trazer novidades para seus pomares encontram pelo caminho. O maior desafio é conquistar o paladar dos gaúchos – fator considerado chave para uma produção em escala. Sem garantir espaço à mesa, a safra pode ficar fadada a um mercado de nicho, rentável, mas limitado.

É o caso do mirtilo, que cultivado há quase duas décadas no Estado, ainda não se tornou item obrigatório na lista do supermercado. Nestor Soga dedica três hectares da propriedade, situada em Caxias do Sul, para a produção da fruta. Atualmente o pomar conta com três variedades de mirtilo, mas ao longo de 18 anos de experiência no cultivo, conta o produtor, já foram testadas 45 tipos diferentes.

– É fácil produzir. É uma fruta rústica, que se adapta bem em terreno arenoso e de PH baixo. Mas foi preciso encontrar variedades que se adaptavam ao clima e à temperatura. Algumas exigem um período maior de frio do que outras – explica Soga.

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Produção restrita

Comum em países europeus, no Chile e na Argentina, na América do Sul, a produção de mirtilo no Brasil está restrita a poucos produtores do Rio Grande do Sul. Além do clima, que impede o cultivo acima do Mampituba, o entrave pode estar no gosto um pouco ácido do produto.

– O brasileiro gosta mais de frutas doces, com açúcar. O mirtilo é diferente, mas é muito rico em nutrientes – conta o produtor, que tem uma produção orgânica e vende a mercadoria direto para supermercados de Caxias do Sul e Porto Alegre. O preço de 1,2 quilo da fruta chega a R$ 48.

Hoje restrita a menos de dez produtores na Serra, o cultivo de mirtilo já foi alvo de grandes investimentos e decepções, conta Derli Paulo Bonine, assistente técnico de fruticultura da Emater.

– Sempre que um programa de televisão fala das propriedades da fruta, a demanda pelo mirtilo aumenta, o que gera empolgação por parte do produtor. Anos atrás, agricultores da região de Anta Gorda e Putinga investiram na produção e o resultado não foi como o esperado. Depois da empolgação, os consumidores não procuram muito – afirma, acrescentando que apesar do incentivo não é fácil para uma fruta ¿exótica¿ se tornar ¿convencional¿ na mesa dos gaúchos.

MIRTILO

Foto: Gabriela Lain / Especial

Também conhecida como Uva-do-monte, blueberry (inglês) e arándano (espanhol).
Origem: São originárias da Eurásia e que também crescem em florestas temperadas na Europa. Outra variedade é nativa da América do Norte.
Características: Nascem em arbustos. O fruto é é menor que a uva e, quando madura, fica da coloração azul arroxeada. A semente é muito pequena. Existem dezenas de variedades de mirtilo
Sabor: Ligeiramente ácido.
Propriedades: Contém poucas calorias e possui nutriente benéficos para a saúde, como fibras solúveis dietéticas, minerais e vitaminas. Os pigmentos antioxidantes protegem o corpo humano contra o câncer, envelhecimento, doenças degenerativas e infecções. O fruto contêm de vitaminas A, C e E.
Cultivo: É um fruto típico de clima temperado, que necessita de frio no inverno. Regiões com pouca acumulação de frio. As regiões mais indicadas são as que apresentam acumulação de frio superior a 500 horas anuais. Porém, a adaptação está diretamente associada à exigência de cada cultivar.

Temporal arrasou cultivo de chia

A chia, fruta típica do México e da Colômbia, também enfrentou barreira para conquistar o paladar dos gaúchos. Rica em proteínas e fibras, vários produtores que investiram no cultivo acabaram voltando atrás.

Uma das primeiras a apostar no plantio no noroeste do estado, Vera Dalla Vechia conta que ela e o marido, Roque, desistiram do plantio após perder toda a plantação durante um temporal no inverno passado. A chuva, tão importante no período de plantio, é indesejada na época da colheita porque prejudica a fruta.

No auge da produção, a família chegou a dedicar 30 hectares da propriedade, localizada em Entre-Ijuís, para a variedade. Agora prefere comprar chia de outros produtores da região para produzir a farinha e óleo extra virgem de chia.

– Perdemos um pouco na margem, mas não corremos tanto risco – afirma Vera.

TERRA DAS FRUTAS

Das 20 frutas mais consumidas no país, apenas três são nativas.

Abacate – América Central
Abacaxi – Brasil
Banana – Sudeste Asiático
Bergamota – Ásia
Caqui – Ásia
Coco – origem desconhecida
Figo – Ásia
Goiaba – Brasil
Laranja – Ásia
Limão – Sudeste Asiático
Mamão – América Tropical
Manga – Ásia
Maracujá – Brasil
Marmelo – Europa e Ásia
Maçã – Ásia
Melancia – África
Melão – Europa, Ásia e África
Pera – Europa
Pêssego – Ásia
Uva – Ásia, América do Norte e Europa

Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)

Nativas, mas não populares
Várias espécies nativas do Rio Grande do Sul não conseguiram conquistar a mesa dos gaúchos.
Araçá
Butiá
Guabiroba
Goiaba Serrana
Pitanga 

Por: Cadu Caldas

Fonte : Zero Hora

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