CAMPO E LAVOURA – Com Selic em queda, setor quer juro menor no Plano Safra

Com a taxa básica de juro no Brasil, a Selic, no menor nível da história, entidades agropecuárias do Rio Grande do Sul esperam por redução nos custos dos financiamentos do Plano Safra 2020/2021, que será anunciado pelo Ministério da Agricultura na quarta-feira. No mesmo dia, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central deverá cortar a Selic de 3% para 2,25% ao ano, projeta o mercado financeiro.

Em a meio esse contexto, a queda do juro no crédito agrícola é o principal pleito dos produtores. O economista-chefe da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), Antônio da Luz, lembra que a agropecuária é o único setor que segue crescendo no Brasil, mesmo com a pandemia. Neste sentido, avalia como "absurda" a hipótese de ofertar taxas muito acima da Selic.

– O Plano Safra passado já foi descalibrado, tanto que hoje há oferta de crédito mais barato no mercado. Se esse juro não for o indutor do crédito, o agricultor vai pegar dinheiro em outro lugar. Isso acontecer duas vezes seguidas vai levantar dúvidas sobre o papel do plano – avalia Luz.

No ciclo passado, o juro para o produtor regular era de 8% ao ano, para os agricultores de médio porte, de 6%, e na agricultura familiar chegava a até 4,6%. O presidente da Federação dos Trabalhadores na Agricultura no Estado (Fetag-RS), Carlos Joel da Silva, salienta que a recente trajetória de redução dos juros não está chegando na ponta final.

– Está na hora de o governo apertar os bancos. Não dá para se forçar um juro acima da Selic. Para a agricultura familiar, uma taxa razoável seria entre 1% e 2% – aponta.

O presidente da Federação das Cooperativas Agropecuárias do Estado (Fecoagro-RS), Paulo Pires, reforça que o crédito seria um instrumento importante para atenuar os prejuízos causados pela estiagem no Estado.

– Para o produtor gaúcho, que teve frustração com a safra desse ano, é ainda mais importante (a redução do juro) – complementa.

Renegociação deve ser ampliada

Uma das medidas mais aguardadas pelos produtores gaúchos afetados pela estiagem, a mudança na resolução do Banco Central referente à renegociação de dívidas deverá ser atendida nos próximos dias. Pela norma atual, essa possibilidade só é concedida aos agricultores em cidades que decretaram emergência até 9 de abril. Mas, o diretor de política agrícola da Secretaria Estadual da Agricultura, Ivan Bonetti, recebeu sinalização do Ministério da Agricultura de que os municípios com documento editado até 31 de maio também deverão ser contemplados.

– Como a estiagem se estendeu até maio, cerca de 40% dos municípios afetados estariam sob pena de ficar de fora da renegociação – afirma.

O anúncio da extensão deve ocorrer até 25 de junho. A demora para oficializar a mudança, segundo o ministério, ocorre pela necessidade de se concluir levantamento junto às defesas civis dos Estados identificando os municípios que seriam incluídos.

Até o momento, 407 municípios gaúchos decretaram situação de emergência por causa da estiagem, segundo levantamento da defesa civil do rio grande do sul.

São 375 prefeituras que já tiveram o documento homologado pelo governo do estado e 366 obtiveram reconhecimento da união. em 2012, 381 cidades foram afetadas pela escassez de chuva.

MST busca investidores

O Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST) está em busca de investidores. O movimento lançou um projeto chamado Financiamento Popular (Finapop), que pretende captar recursos no mercado financeiro para expandir a produção das cooperativas de agricultores familiares vinculadas ao grupo. Articulada em conjunto com o economista Eduardo Moreira, a iniciativa beneficiou a Cooperativa de Produção Agropecuária Nova Santa Rita (Coopan), da Região Metropolitana de Porto Alegre, em sua primeira etapa. A partir da emissão de um Certificado de Recebíveis do Agronegócio (CRA), a Coopan obteve R$ 1 milhão de sete investidores.

O dinheiro será utilizado pela Coopan na conclusão da construção de um abatedouro de suínos, que teve as obras iniciadas antes da pandemia de coronavírus (foto).

Nos próximos meses, mais processos de financiamento serão abertos dentro do Finapop. Um novo CRA será utilizado para destinar R$ 5 milhões a cooperativas voltadas à produção de mel e cacau no Nordeste. Além disso, uma operação de R$ 25 milhões está sendo estruturada e atenderá de cinco a 10 projetos. Uma cooperativa gaúcha vinculada ao MST, que produz suco de uva, deverá ser incluída.

Moreira diz que a ação permite às cooperativas conseguir recursos com menor custo, se comparado com as linhas de crédito oferecidas pelos bancos. Por outro lado, a iniciativa permite que o investidor aloque seu dinheiro em causas que apoia.

– Hoje, as pessoas não têm ideia do que estão financiando com o dinheiro que deixam no banco. Queremos oferecer rentabilidade, mas você escolhe no que o dinheiro será usado – argumenta Moreira.

FERNANDO SOARES | INTERINO

Fonte : Zero Hora

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