CAMPO E LAVOURA | China deve ser a primeira a "comprar" novo status do RS

Não é parado que o setor de proteína animal espera pela homologação do novo status sanitário, de livre de aftosa, sem vacinação – para Rio Grande do Sul, Paraná e Bloco I (Acre, Rondônia e parte do Amazonas e do Mato Grosso). Um estudo está sendo feito para ver em quais países do mundo será necessário alterar a documentação, para que o governo comece a se preparar para isso. Ontem, o assunto foi debatido em reunião com integrantes do Ministério da Agricultura. A ideia é deixar tudo pronto para que, quando o certificado da Organização Mundial de Saúde Animal (OIE) saia, em maio, seja possível dar agilidade aos passos seguintes.

– Primeiro é entre os governos. Depois de esclarecidas todas as questões técnicas e com um novo certificado sanitário, as empresas podem começar a fazer negócios – pontua José Roberto Goulart, presidente do Sindicato das Indústrias de Produtos Suínos do RS (Sips).

E o candidato mais imediato a ampliar seus negócios com o RS livre da aftosa sem vacinação é a China. O país asiático hoje já compra produtos do Estado. Mas a carne com osso e miúdos, que têm maior valor, não. Atualmente, só Santa Catarina, que já tem esse status sanitário, consegue ter acesso a essa fatia de mercado.

– Acredito que o Estado possa buscar, com as plantas que estão aprovadas para China, um adicional em torno de 4 mil toneladas por mês ou 48 mil por ano, com uma receita anual aproximada de US$ 120 milhões – avalia o presidente do Sips.

Seria a primeira de muitas portas que se espera abrir com a mudança – na lista dos países cobiçados estão, por exemplo, Japão e Chile.

– Independentemente do valor, o que vale é uma oportunidade a mais que se tem. Significa ter novas alternativas. E o status agrega valor ao produto – reforça Ricardo Santin, presidente-executivo da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA).

No sentido da colheita

Nos números da safra, o ponteiro parou na previsão de uma produção de soja inédita de 20,07 milhões de toneladas. Essa é a projeção do levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) divulgado ontem, e que repete o dado de fevereiro. No campo, a definição do tamanho da colheita ainda está por vir, com a chuva sendo crucial nos próximos dias.

– A soja está em um estágio em que esse número pode ir para mais ou para menos. Tem potencial para produzir, se o clima não for perverso no final de março – observa Carlos Bestétti, superintendente da Conab no RS.

O trabalho das máquinas vai começando a aparecer aos poucos. Conforme dado da Emater, a colheita soma 1% da área total, mais de 6 milhões de hectares. A maioria, 66%, está na fase de enchimento de grão – em que a umidade não pode faltar.

Na propriedade dos irmãos Strobel (foto acima), em Condor, no Norte, as máquinas entraram a campo nesta semana. As áreas plantadas em novembro não foram comprometidas pela falta de chuva no último ano. Mas as variedades cultivadas mais tarde, que devem ser colhidas daqui a 20 ou 25 dias, precisam de uma ajuda final do tempo:

– Para fechamento do ciclo seria bem importante mais uma chuva na semana que vem – afirma Jorge Strobel.

Com 2,4 mil hectares de soja, a expectativa é de alcançar cerca de 70 sacas por hectare – acima da média projetada pela Conab para o Estado, que é de 55,2 sacas por hectare. Neste ano, diz Jorge, o cultivo foi favorecido pela chuva na região do final de fevereiro e início de março na região.

marcos tang Médico e produtor rural

"Este momento é o mais crítico"

O cirurgião Marcos Tang vive hoje uma rotina diferente em meio ao recrudescimento da pandemia no Estado. Com a escalada de casos e internações, as salas de recuperação cirúrgica foram reorganizadas para dar conta da demanda, e ele passou a lidar diretamente no atendimento de pacientes com covid-19. Da mesma forma, o produtor rural, proprietário da Granja Tang, em Farroupilha, na Serra, segue com o trabalho. O rebanho leiteiro exige cuidados ininterruptos. "A vaca não tem botão de pause", disse, há um ano, na chegada do coronavírus.

– Qualquer tipo de confinamento (ficar em casa, sem sair) exige uma boa alimentação. Então, temos de continuar com a produção – completa o também presidente da Associação dos Criadores de Gado Holandês.

Em conversa com a coluna, Tang conta um pouco da sua rotina nas duas atividades. Confira trechos.

Na sua rotina de médico, o que mudou nesse ano de pandemia?

Agora estou na linha de frente mesmo, as salas de recuperação foram transformadas para atendimento de covid-19. Não achávamos que ia acontecer esse embaraço tão grande na saúde. Temos de manter a economia viva, mas este momento é o mais crítico, e que pensamos que talvez não fôssemos atingir. Aconteceu de superar a capacidade, saturou. Todo mundo trabalhando em cento e tantos por cento (de ocupação). Aquele percentual de pessoas que ficam em estado grave é um número absoluto muito alto.

E em relação ao trabalho na propriedade? O que mudou?

A produção continua. Porque qualquer tipo de confinamento (ficar em casa, sem sair) exige uma boa alimentação, então temos de continuar com a produção. Com todo o cuidado, com cuidado total, mas evidentemente que não pode parar. É preciso seguir produzindo.

A situação atual tem sido muito exaustiva, especialmente para profissionais da saúde. Como lidar com isso?

Isso está exigindo muito. Três coisas podem acontecer e só uma é boa. Pode-se ter ataque de pânico, desespero, ficar indiferente. Ou manter a razão, a ciência, capacidade de raciocínio em meio a tudo isso. Temos de achar o equilíbrio. É bem difícil manter essa linha.

no radar

O trigo terá um novo preço mínimo a partir de julho. O cereal teve reajuste de 11,04%, com o tipo pão ficando em R$ 48,18 a saca de 60 quilos na Região Sul. A laranja também terá mudança, com a caixa de 40,8 quilos da fruta in natura na safra 2021/2022 ficando em R$ 17,76, o que representa alta de 14,36%. Esses valores mínimos são utilizados em políticas governamentais.

24,31%

foi o avanço do PIB do agronegócio no país em 2020, na comparação com 2019. É um crescimento recorde anual, apontam Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), que realizam o acompanhamento. Com o resultado, o setor alcançou 26,6% de participação no PIB total do Brasil no ano passado.

GISELE LOEBLEIN

Fonte: Zero Hora

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