CAMPO E LAVOURA | Canola embeleza o interior do RS

As flores amarelas começam a tomar conta dos campos, embelezando a paisagem no interior do Rio Grande do Sul. Neste momento, 44% das lavouras de canola já estão em floração no Estado e 5% entraram na fase de enchimento de grãos, conforme a Emater. Mesmo com o clima chuvoso das últimas semanas, a cultura tem se desenvolvido com boa sanidade.

Neste ano, a área plantada no Estado chega a 34,4 mil hectares, incremento de 6,5% frente ao ciclo anterior. A colheita deverá totalizar 42,8 mil toneladas. Na região de Santa Rosa, no Noroeste, responsável por metade do cultivo gaúcho, o patamar de preços próximo ao da soja levou os produtores a reforçarem a aposta na canola nesta safra. No momento, a saca de 60 quilos está valendo R$ 102,40.

– A canola virou uma alternativa para garantir boa lucratividade no período do inverno – salienta José Vanderlei Waschburger, gerente regional adjunto da Emater de Santa Rosa.

Com as temperaturas mais elevadas que devem ser registradas no Estado neste final de semana, fiscais da Secretaria da Agricultura nos municípios da Fronteira Oeste e do Noroeste aumentarão a vigilância sobre a possível entrada da nuvem de gafanhotos vinda da Argentina, que está a cerca de 130 quilômetros de Barra do Quaraí. Paralelamente, o Ministério da Agricultura monitora uma segunda nuvem de insetos no Paraguai, que poderia chegar ao Brasil.

"Não há mais espaço para negacionismo na agricultura"

ENTREVISTA: MARCELLO BRITO Presidente da Abag

No início de julho, 42 executivos de grandes empresas e dirigentes de entidades setoriais brasileiras manifestaram publicamente preocupação com os efeitos da política ambiental adotada no governo Jair Bolsonaro. Em carta endereçada ao presidente do Conselho Nacional da Amazônia Legal, o vice-presidente Hamilton Mourão, empresários enfatizavam a importância do combate ao desmatamento e pediam que o país adotasse ações socioambientais efetivas. O presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), Marcello Brito, foi um dos signatários do documento. Britto constata que a imagem do Brasil no Exterior vem se deteriorando e já impacta negócios do setor produtivo.

O que leva à preocupação do setor com a política ambiental brasileira atual?

O meio ambiente é o que irriga a agricultura brasileira, que, em sua vasta maioria, não é irrigada. É uma agricultura que depende de chuva. Não acho que seja surpresa alguém estar falando da relação entre produção agrícola e meio ambiente. Surpresa, para mim, são aqueles que acham que isso é uma bobagem, não falam desse assunto e querem ser negacionistas. Isso não tem mais espaço numa agricultura do século 21. Agricultura de desmatamento, de queimada, de devastação, de baixa utilização de tecnologia científica, essa ficou no século 19.

Há boicote a produtos brasileiros no Exterior?

O que ocorre, e é muito ruim, são os boicotes silenciosos. Uma das maiores empresas de alimentos no mundo, que não posso citar o nome, compra um volume considerável de derivados de soja. Mas, de quase 1 milhão de toneladas, ela só compra 160 mil do Brasil. Por quê? O diretor falou para mim que não quer aumentar a exposição ao Brasil neste momento. Isso foi em fevereiro, antes da pandemia e do aumento do desmatamento. Não é uma posição que começou agora, já vem se materializando há algum tempo. Esse é o tipo de boicote que as pessoas têm de entender (que acontece). Não estamos falando que o problema é da soja, da carne, do algodão ou da banana brasileira. É o problema da marca Brasil. Essa marca precisa ter um tratamento diferenciado.

Por que empresários passaram a pedir ações socioambientais mais efetivas?

A posição no mundo inteiro em relação a tendências de consumo mais ambientalmente amigáveis pode ser constatada por centenas de pesquisas. As empresas estão enxergando que as mensagens que estamos passando para esses consumidores não estão corretas, em função das ações que estão sendo praticadas. No caso do meio ambiente do Brasil nós precisamos comprovar com fatos. Independentemente se a gente fizer uma excelente agricultura no Rio Grande do Sul, os aspectos do tratamento errôneo que damos à Amazônia brasileira e aos outros biomas vão atrapalhar essa produção.

Por onde se começa a mudar a imagem passada pelo país?

Nosso agronegócio é maravilhoso, é muito bom, mas lamentavelmente vamos continuar apanhando enquanto não conseguirmos mandar as mensagens corretas. E as mensagens corretas são ações efetivas em relação ao controle do desmatamento ilegal, da grilagem de terra e da devastação desenfreada da Amazônia. Aí, sim, teremos um agro e setores econômicos imbatíveis, porque, além da produção de forma sustentável, teremos o carimbo de uma Amazônia preservada.

fernando.soares@zerohora.com.br

FERNANDO SOARES – INTERINO

Fonte: Zero Hora

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