CAMPO E LAVOURA – CAMPO E LAVOURA

A ansiedade que toma conta do produtor de trigo do RS

Produtores do Rio Grande do Sul que apostaram no trigo têm vivido dias de ansiedade. Animados com as cotações valorizadas do cereal ao longo deste ano, dependem da colaboração do tempo para alcançar resultados que permitam aproveitar esse bom momento de mercado. Porque não adianta o preço ser bom, se não houver produto para vender. A colheita começou na região de Santa Rosa, no Noroeste, e nas próximas dias semanas deve ganhar força.

– Existe um sentimento tenso com o clima. O produtor está preocupado. Porque os preços estão bons, e ele tem medo de não colher – pondera Paulo Pires, presidente da Federação das Cooperativas Agropecuárias do Estado (Fecoagro-RS).

A angústia vem justamente de potenciais danos decorrentes de situações climáticas adversas. As lavouras que estão sendo colhidas neste momento, por exemplo, são justamente aquelas que foram semeadas mais cedo. E por conta disso, estavam em momento suscetível do desenvolvimento quando foram atingidas por intensa geada na segunda metade de setembro.

– As primeiras lavouras colhidas são as que sofreram mais com geada e granizo. Pegou em fase mais crítica, no enchimento de grão. Mesmo assim, é bem variado o impacto – diz Vanderlei Waschburger, gerente-adjunto da regional da Emater Santa Rosa.

Ele observa que há situações de áreas cultivadas no mesmo período com resultados diferentes – os municípios dessa região somam cerca de 220 mil hectares. De uma forma geral, as perdas nessa área são estimadas em 35%. A expectativa é de que variedades de ciclos mais longos ou plantadas mais tarde compensem um pouco, mantendo, por ora, os prognósticos de boa safra.

Vai depender de como o tempo irá se comportar daqui para frente. E se a geada foi a causadora de estragos no passado, neste momento, a falta de chuva em localidades do Estado acende o sinal de alerta. Na regional da Emater de Frederico Westphalen, onde são cultivados 126 mil hectares, as precipitações têm ficado aquém do que costuma ser registrado no período, explica o gerente Luciano Schwerz:

– Por mais que tenha (a geada) comprometido parte das lavouras, a tendência é de safra boa. Me arrisco a dizer que a falta de chuva de agora está sendo um risco maior.

A área de trigo já colhida no Estado soma 1% do total.

Mais conectado do que nunca

A pandemia acelerou um processo que já estava em curso no campo: o uso da tecnologia como ferramenta de trabalho, da tomada de decisão à colheita da lavoura. Antes mesmo do distanciamento social, os produtores brasileiros demonstravam essa interação.

É o que mostra a pesquisa A Mente do Agricultor Brasileiro na Era Digital, realizada pela consultoria McKinsey & Company, que ouviu cerca de 750 pessoas em 11 Estados – no Rio Grande do Sul, participaram produtores de grãos. Os dados serão detalhados hoje, a partir das 8h30min, no RBS Talks (para participar, é necessário se inscrever pelo endereço bit.ly/inscriçãorbstalks), por Nelson Ferreira, sócio sênior da McKinsey e líder da prática Agricultura e Químicos na América Latina, e Sergio Canova, sócio da McKinsey e líder da atuação em PR, SC e RS. Participam ainda do debate Edson Bolfe, pesquisador da Embrapa, Frederico Logemann, head de Inovação, Estratégia e Relação com Investidores da SLC Agrícola e Nei Mânica, presidente da Cotrijal.

Reforço à vista

O quadro de auditores fiscais federais agropecuário do Ministério da Agricultura receberá um necessário reforço. A autorização para que sejam chamados 139 médicos veterinários aprovados no último concurso, em 2018, veio em decreto publicado no Diário Oficial.

No ano passado, já havia sido autorizada a nomeação de cem auditores fiscais federais agropecuários – o total na seleção eram de 300 vagas. A previsão é de que as novas vagas sejam, principalmente, para inspeção federal em frigoríficos e laticínios. Ainda não há previsão de data para contratação.

Pronto para decolar

Tem startup gaúcha voando alto em solo americano. A Arpac, que desenvolve drones para utilização em atividades agrícolas, tem duas frentes de ação nos Estados Unidos. A primeira, por meio de parceria com a empresa israelense Taranis, de inteligência artificial, acaba de ser concluída. De julho até a metade de setembro, três equipamentos especialmente desenvolvidos para a companhia sobrevoaram lavouras de soja e de milho em Indiana e Illinois.

– Desenvolvemos um drone para levar a câmera da Taranis. O equipamento que criamos tira as fotos, envia a imagem, e a empresa faz a leitura dos dados. Com isso, tem-se uma recomendação agroquímica melhor – explica Eduardo Goerl, CEO e fundador da Arpac.

A iniciativa agradou e, no próximo ano será repetida, podendo ter entre 15 e 20 drones utilizados. A parceria com a Taranis já existia no Brasil desde 2018, e agora se multiplica para o território americano. É também de lá que vem outra grande oportunidade. A startup foi uma das 20 finalistas selecionadas entre 270 empresas inscritas para um concurso promovido pelo governo do Estado de Nova York com a Universidade de Cornell. O objetivo é desenvolver uma solução inovadora que possa ser aplicada por produtores locais. O primeiro lugar recebe um incentivo e tanto: US$ 1 milhão.

– Nosso plano é estar lá, oferecendo tanto o braço de imagem quanto o de pulverização – acrescenta Goerl.

Aliás, foi com o serviço de pulverização de drones com produtos biológicos que a Arpac surgiu, em 2016. A startup foi incubada no Tecnosinos, parque tecnológico da Unisinos. Dentro do país, cresceu com a aplicação feita com o equipamento, tendo impulsos a partir de parcerias com a Basf e com a Raízen. No ano passado, atuou em Rio Grande do Sul, São Paulo, Goiás e Mato Grosso. Partiu de 400 hectares na primeira safra em operação, para a projeção de 150 mil hectares na próxima, com 20 equipamentos.

– Importamos motor e bateria. Mas a inteligência, onde agregamos valor, é toda desenvolvida em Porto Alegre – destaca o fundador.

O time hoje tem 25 pessoas.

17 é o número de amostras no RS de envelopes de sementes não solicitadas recebidos. Os casos se multiplicam no país. Hoje o Ministério da Agricultura deve detalhar as investigações.

GISELE LOEBLEIN

Fonte : Zero Hora