CAMPO E LAVOURA

A promessa que será quebrada na atual safra de trigo do RS

Sucessivos resultados negativos do trigo no Rio Grande do Sul nas últimas safras, na colheita, comercialização ou em ambas, fizeram do cereal uma provação. Toda vez que o produtor apostava na cultura, algo dava errado, e as consequências pesavam no bolso – porque, do ponto de vista técnico, o benefício da cobertura do solo no inverno é reconhecido. Diante da rentabilidade perdida, produtores decidiram: “Nunca mais planto”.

Pois o ciclo deste ano fará com que a promessa seja quebrada. Os prejuízos com a produção de grãos no verão fizeram o trigo voltar a ser uma opção. Soma-se a isso um mercado de cotações favoráveis, e o resultado é a projeção de aumento de área. Que varia de números mais contidos, na casa de 10%, até avanço de dois dígitos, superando a marca de 20%.

Nas Missões e na região de Santa Rosa, o plantio “está a todo vapor”, observa Paulo Pires, presidente da Federação das Cooperativas Agropecuárias do Estado:

– Pelas informações que temos de dirigentes de cooperativas e da venda de insumos, achamos que pode passar de 20% o aumento. Sobretudo nos locais não tradicionais de cultivo.

É a tal base de comparação, que serve também quando se olha o quadro geral do Estado. A última vez que a área do cereal passou de 1 milhão de hectares foi em 2014. De lá para cá, teve mais baixas do que altas. O tamanho reduzido evidencia o prejuízo que o produtor vinha colhendo. Para se ter uma ideia, a área cultivada no verão, somente com a soja, é de quase 6 milhões de hectares. André Cunha da Rosa, diretor e melhorista da Biotrigo Genética, avalia que um crescimento de cerca de 10% no espaço do trigo seria uma aposta moderada:

– Muita gente que tinha prometido não plantar mais está voltando. Estamos com um cenário visto poucas vezes.

O produto brasileiro ficou atrativo para a indústria nacional, em razão da variação cambial, outro fator que anima.

Coordenador da Câmara Setorial de Trigo da Secretaria da Agricultura, Tarcísio Minetto também fala em “momento interessante” da cultura e recomenda:

– Há vários tipos de trigo: para o mercado interno, externo, de duplo propósito. O produtor deve avaliar a característica do solo. Para ter uma resposta boa no campo.

Nova regra de circulação garantida

No processo de busca do avanço de status sanitário, para zona livre de febre aftosa sem vacinação, o Rio Grande do Sul tem novas regras em jogo. Uma delas é a que restringe a circulação de animais de Estados onde ainda é feita a vacinação.

Cargas de bovinos destinadas a abate em território gaúcho precisam ter lacre da inspeção sanitária do local de origem.

A Procuradoria-Geral do Estado (PGE) teve nesta semana decisão favorável para a aplicação da determinação (que consta em Instrução Normativa da Secretaria da Agricultura).

Depois de ter a carga barrada porque estava sem lacre, no último dia 24, no Posto Fiscal de Divisa de Iraí, pecuarista do Mato Grosso do Sul recorreu à Justiça, alegando que a exigência era ilegal e arbitrária.

A 3ª Vara da Fazenda Púbica da Comarca de Porto Alegre indeferiu o pedido do produtor.

no radar

A Languiru vai testar todos os funcionários dos frigoríficos de Poço das Antas e Westfália para a covid-19. A medida é uma das que constam em acordo com o Ministério Público do Trabalho (MPT-RS). Os trabalhadores passarão por triagem e avaliação clínica, sendo encaminhados para exames (o tipo depende do estágio de infecção). A testagem também será rotina entre quem tem atividade presencial ou compartilha ambiente.

Escala digital

A tecnologia sempre teve papel importante no agronegócio. Não por acaso, empresas do setor têm respondido com agilidade aos desafios impostos pela pandemia. As ferramentas digitais ganham ainda mais espaço e dão amplitude no relacionamento com os produtores. A multinacional Syngenta deu velocidade a iniciativas que já desenvolvia.

– O efeito do coronavírus tem esse potencial de antecipação, e as empresas que estavam acreditando nisso, se preparando, vivem a primeira onda para assegurar a conexão com agricultores – avalia André Savino, diretor comercial e de marketing da Syngenta.

Uma das ações, a Feira Digital 360°, reproduz o ambiente de exposições do agro – por ora canceladas ou adiadas. Com a vantagem, argumenta Savino, de que é possível reunir os melhores profissionais, ao mesmo tempo, o que talvez não fosse possível em um estande real. Há ainda os debates, os dias de campos virtuais e encontros técnicos:

– Existe demanda por informação de qualidade. Com a plataforma digital, esse conhecimento ganha escala.

Além da comunicação, a perspectiva é de que essas ferramentas terão papel importante na gestão das propriedades. E essa aposta aparece nos movimentos da companhia, que em 2018 comprou a Strider, empresa de tecnologia com foco no gerenciamento de dados.

De origem suíça, a Syngenta foi adquirida pela chinesa ChemChina em 2017, formando uma das gigantes globais do setor. A nova configuração reforçou produção e abastecimento, de forma que a companhia não prevê impactos em seu mercado de defensivos agrícolas no período de restrições impostas pela covid-19.

GISELE LOEBLEIN
Fonte: Zero Hora