CAMPO ABERTO – Os muitos lados da moeda na arrancada do dólar

A variação cambial, com o dólar engatando alta após o leilão do pré-sal, no início do mês, traz efeitos diversos e antagônicos para o agronegócio brasileiro. Ontem, a moeda americana chegou a estar cotada a R$ 4,275. Fechou em R$ 4,239. À primeira análise, há o benefício da valorização do produto, em reais, nos setores que são exportadores. É o que tem ocorrido com carnes e soja, por exemplo. Por outro lado, implicará em custos maiores, uma vez que boa parte dos insumos utilizados na agropecuária tem algum componente importado.

– É bom no curto prazo para quem tem produto a exportar. Mas logo aí na frente tem de repor mercadoria, e os custos de produção. E aí, a conta vem – observa o analista de mercado e coordenador da Central Internacional de Análises Econômicas e de Estudos de Mercado Agropecuário da Unijuí, Argemiro Brum.

Apesar dos eventuais efeitos colaterais positivos, Antônio da Luz, economista-chefe do Sistema da Federação da Agricultura do RS (Farsul) diz que "câmbio bom é o estável":

– Quando olhamos para os índices do custo de produção e do preço recebido, o que se vê é que a variação cambial não se reflete em melhora substancial de valores. Ao mesmo tempo, não fossem as enchentes nos Estados Unidos, que ampliaram a oferta de fertilizantes, com redução de valores, os gastos estariam explodindo.

A Farsul mede a inflação do agronegócio. No resultado divulgado ontem, aponta recuo nos custos de produção, no acumulado de 12 meses, de 2,12%, mas também nos valores dos produtos, de 1,21%. Apesar disso, o IPCA Alimentos subiu 3,01%, acrescenta Luz, reforçando a tese de que as variações de preços ao produtor não são determinantes para a quantia paga pelo consumidor.

– Temos de ganhar mercado com aumento de margem, de competitividade, e não por fator que não controlamos, como o câmbio – completa.

Brum lembra que o preço do produto costuma cair rapidamente, ao passo que o do insumo, quando recua, não é na mesma velocidade. E não se sabe como estará o dólar no momento da colheita no Brasil.

– Além disso, a preocupação que vem é o custo de vida da população. Câmbio desse tipo vai encarecer produto dentro de casa – projeta o analista.

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GISELE LOEBLEIN

Fonte : Zero Hora