CAMPO ABERTO – Novas habilitações reforçam otimismo

A habilitação de oito novos frigoríficos brasileiros de carne bovina para embarques à Arábia Saudita reforça as expectativas otimistas do setor de fechar o ano com resultados históricos. O anúncio foi feito ontem pela ministra da Agricultura, Tereza Cristina, que atribui a conquista à recente viagem do presidente Jair Bolsonaro àquele país e ao trabalho de abertura e ampliação de mercados que vem sendo capitaneado pela pasta.

Nenhuma das plantas autorizadas está no Estado (uma fica no Maranhão, três em Minas Gerais, duas no Pará, uma em Rondônia e uma em São Paulo). Mas mesmo quem não exporta acaba sentindo os efeitos da maior demanda externa.

Ao fazer balanço das exportações do ano, a Associação Brasileira dos Frigoríficos (Abrafrigo) também projetou manutenção das exportações até o final do ano, devendo levar o país a novo recorde, com crescimento pouco acima de 10%, como publicou a coluna.

Mais do que isso, a entidade vê possibilidade de evolução dos números no próximo ano, com a entrada de novos países, entre os quais a Indonésia, e com a expectativa de que os Estados Unidos reabram suas portas.

E essa é, de fato, a grande notícia esperada pelo setor. No domingo, dia 17, Tereza Cristina embarca para os EUA, onde vai abordar o assunto – já que relatório enviado pelos americanos solicitou mais explicações, mantendo o embargo que se arrasta desde 2017.

Os laudos das coletas em propriedades com suspeita de contaminação pelo herbicida 2,4-D ainda não chegaram à Secretaria da Agricultura. O dado mais recente indica 73 denúncias de deriva do produto. foram, no total, 85 coletas. O material é encaminhado ao Laboratório de Análises de Resíduos de Pesticidas da UFSM.

"É desafio tirar o estigma da agricultura"

Rafael Zavala, Representante da FAO no Brasil

Representante da Organização para a Alimentação e a Agricultura das Nações Unidas (FAO), o mexicano Rafael Zavala foi um dos convidados para o lançamento, ontem, no Rio Grande do Sul, da Década da Agricultura Familiar 2019-2028, promovida pela ONU. Ele participou de ato, coordenado pelo deputado Elton Weber (PSB), na Assembleia Legislativa. Na pauta, estavam desafios do setor. Confira trechos da entrevista de Zavala à coluna.

Por que ter uma década dedicada à agricultura familiar?

A década surge do êxito do ano internacional da agricultura familiar (em 2014). É um termo muito difuso. Vai desde o camponês africano até o agricultor gaúcho, que tem produção viável, associativa. Mas graças a essa complexidade também ficou demonstrado que a grande maioria dos produtores é desse setor. E quando fazemos subdivisão, a maioria dos alimentos saudáveis está neste segmento, sem sacralizar isso, nem satanizar os outros.

Quais os desafios do setor?

No sul do Brasil há uma agricultura familiar com ingrediente potente de cooperativismo. Esse componente não está presente em outros lugares. No Nordeste, por exemplo, o associativismo é para outros fins. Há uma parte da idiossincrasia regional que é diferente. Há outra agricultura familiar que é a amazônica, que temos de trabalhar de melhor maneira, mais inovadora.

Como incentivar a sustentabilidade nas propriedades?

São dois pontos. Um é gerando a demanda por parte do consumidor. Essa agenda mais urbana da agricultura implica em maior proximidade entre consumidor e produtor. O outro é desde a perspectiva de família produtora, que é parte de uma organização, que pode gerar regras de governança e de como produzir melhor, de maneira mais saudável e sustentável.

O que é um alimento saudável na visão da FAO?

É aquele fruto de sistema alimentar sustentável, que não provoque obesidade. E deve ser um alimento que colabore com a estabilidade do território, da cidade, da região, do espaço urbano. Na medida que colabore com isso, será saudável e sustentável.

Como avalia políticas públicas brasileiras para produção e distribuição de alimentos?

Há um marco muito forte de políticas públicas. Mas existem desafios. O primeiro é tirar o estigma da agricultura brasileira. Na Europa, tem fama de desmatar, de usar muito veneno. É desafio tirar o estigma, ter estratégia de produtores, de indústria para promover ações que favoreçam a imagem da agricultura brasileira. Também um esforço para melhor uso de água. O terceiro desafio, e há um grande êxito, é da merenda escolar, como vinculá-lo à agricultura familiar. Há exemplos exitosos, mas localizados. Alimentação escolar é verdadeiramente uma política de Estado. É a mais bem-sucedida.

gisele.loeblein@zerohora.com.br 3218-4709

GISELE LOEBLEIN

Fonte : Zero hora