CAMPO ABERTO – Gisele Loeblein – Bem-estar será próxima barreira comercial

Se hoje a vacinação contra a febre aftosa restringe o acesso a mercados globais, em um futuro próximo, quando a imunização for eliminada, o bem-estar animal será fundamental para as negociações. E a ausência dessa prática, no campo, no transporte e nos frigoríficos deve barrar o produto brasileiro no Exterior.

– Em alguns anos, poderá ser utilizada como barreira. Nossos países devem seguir esse caminho do bem-estar animal antes de a exigência vigorar – observa Stella Maris Huertas Canén, médica veterinária, integrante do grupo colaborador da Organização Mundial de Saúde Animal (OIE) sobre o tema, que pautou debate, ontem, na Casa RBS na Expointer.

Opinião semelhante tem o presidente do Conselho Regional de Medicina Veterinária do Estado (CRMV-RS), Rodrigo Lorenzoni. Ele entende que as boas práticas com os animais vão, no mínimo, influenciar o mercado:

– Está aí uma excelente oportunidade do mercado gaúcho correr na frente.

Para o produtor, as práticas que evitam o estresse dos animais também representam um diferencial. Além de atenderem à demanda que vem do consumidor, evitam perdas econômicas – no caso da carne bovina, por exemplo, lesões e machucados interferem no aproveitamento da carcaça. Por enquanto, ainda não existem programas de bonificação para quem segue à risca as normas de bem-estar. Mas o veterinário Leonardo Thielo de La Vega, diretor-executivo da F&S Consulting, pondera:

-Neste momento, a melhor bonificação é a prevenção da perda.

Stela reforça ainda que a qualidade da carcaça "é reflexo das condições de vida do animal". A busca pelo bem-estar é um caminho sem volta, garantem os especialistas. E embora o consumidor seja o ponto de partida para a transformação de toda a produção, a pesquisadora e veterinária Natalia Aguilar, do Instituto Nacional de Tecnologia Agropecuária da Argentina, observa que argentinos e brasileiros costumam ser mais conformistas: procuram pelo menor preço e não necessariamente pela melhor qualidade.

NEGÓCIOS

EM ABERTO

Os negócios da 40ª Expointer poderão ser de menos propostas e tíquetes médios maiores. Pelo menos essa é a avaliação de fabricantes e bancos. As projeções se dividem entre os que apostam em volume parecido ao de 2016 – R$ 1,9 bilhão – e os que projetam crescimento. Para o gerente de mercado agronegócios do Banco do Brasil (BB), João Paulo Comerlato, os financiamentos pela instituição deverão ficar no mesmo patamar do ano passado, quando somaram R$ 520 milhões.

Até ontem, o BB havia negociado igual quantia em relação ao mesmo período de 2016. Mais otimista, Claudio Bier, presidente do Sindicato das Indústrias de Máquinas e Equipamentos Agrícolas do Estado trabalha com a perspectiva de crescimento de 10%.

Grandes players do mercado vão no mesmo tom. A Massey Ferguson, por exemplo, projeta avanço entre 10% e 15%. Rodrigo Junqueira, diretor de vendas da marca, diz que a margem do produtor está menor, mas ainda é positiva:

– O planejamento terá de ser um pouco mais elaborado. Mas o que estamos vendo até agora nos deixa tranquilos.

Sem revelar percentuais, Tangleder Lambrecht, gerente divisional de vendas da John Deere, também aposta em um ano positivo. Mais ousada, a Case IH prevê alta de 30% na feira. Segundo César Di Luca, diretor comercial da marca, há postura de cautela dos produtores. Como as vendas costumam vir em uma crescente na semana, a definição ficará mesmo para o final.

A Delegacia Especializada no Combate aos Crimes Rurais e Abigeato, criada oficialmente ontem, como antecipou a coluna, terá cinco unidades no Estado. As três principais ficam em Camaquã, Bagé e Santiago. Duas complementares, em Rosário do Sul e Cruz Alta. A data para abertura das novas estruturas ainda não está definida.

ESPELHO DO MERCADO

O momento vivido pela pecuária se refletiu nos negócios da 13ª Feira de Novilhas e Ventres selecionados da Farsul, realizada ontem na Expointer. O faturamento foi de R$ 743,12 mil, abaixo do registrado no ano passado (R$ 990,5 mil). No total, 514 fêmeas foram negociadas, com média geral de R$ 1,44 mil – ante R$ 1,71 mil em 2016, com a venda de 577exemplares.

– Fomos prejudicados pelo momento da crise da pecuária – avalia Francisco Schardong, presidente da Comissão de Exposições e Feiras da Farsul.

O dirigente disse, no entanto, que o remate mostrou qualidade genética. O preço médio por quilo na categoria de terneiras foi de R$ 5,55. As novilhas tiveram preço médio de R$ 5,10 e as novilhas prenhes, de R$ 5,40.

Francesa com sotaque gaúcho

A francesa Lactalis apresentou na Expointer um pacote de novidades ao mercado. A primeira é o novo CEO no Brasil: o carioca André Salles, que já atuou em empresas como Vonpar e Brasil Kirin.

A empresa planeja entrar, ainda neste ano, nos mercados argentino e uruguaio, com queijos, leite em pó e bebida láctea. No Estado, onde comprou, no ano passado, cerca de 920 milhões de litros – quase 25% do total -, começa a produzir, em novembro, na unidade de Teutônia, a manteiga Président Gastronomique.

Em tempo: Guilherme Portella, diretor de relações institucionais da Lactalis garante que a empresa não compra leite em pó do Uruguai. Ao ocupar a sede do governo na Expointer, nesta semana, movimentos sociais apontaram a multinacional como uma das responsáveis pela entrada do produto uruguaio.

Da horta ao hambúrguer

A pecuária é a grande estrela da Expointer. Mas a feira é tão democrática que tem espaço também para opções alternativas ao consumo de carne. No estande da Emater, é possível conferir a receita de hambúrguer de couve-flor. A nutricionista Leila Ghizzoni explica que a ideia deste ano é mostrar como utilizar ingredientes da horta.

– O objetivo da nossa cozinha é aproveitar o alimento e evitar o desperdício – completa Leila, que conta com a ajuda das extensionistas Márcia Sparemberger e Adriana Conzatti.

gisele.loeblein@zerohora.com.br

zerohora.com/giseleloeblein

CAMPO ABERTO

Fonte : Zero Hora

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