CAMPO ABERTO – Gisele Loeblein –

A conab e o milho

Duas semanas depois de divulgadas, as perspectivas para a safra brasileira 2017/2018 da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) seguem rendendo polêmica.

A principal refere-se ao milho. Notícias de que o órgão recomendava redução do plantio, dando lugar à soja, causaram indignação entre representantes de entidades do setor, como publicou a coluna. Em especial no Estado, que não é autossuficiente e precisa trazer cerca de 2 milhões de toneladas do grão de outros Estados. Mas a Conab garante não ter feito tal determinação. Thomé Guth, gerente de produtos agropecuários, explica que o balanço traz "pura e simplesmente análise econômica":

– Estamos dizendo que, na conjuntura atual, uma cultura tem mais rentabilidade do que outra, mas a decisão é do produtor.

Há um trecho do documento onde se lê: "é interessante que, estrategicamente, o produtor opte por diminuição da área plantada ainda mais significativa, uma vez que é necessário que a cadeia produtiva de milho, safra 2017/18, reduza significativamente os estoques finais…". A Conab ressalta, no entanto, que está só mostrando as variáveis, sem determinar redução.

– É preciso chegar no equilíbrio: preço não tão baixo que desestimule o agricultor e nem tão alto que impacte o setor de carnes. Esse equilíbrio você trabalha com oferta e demanda – ressalta Guth.

Estação dos touros

No Rio Grande do Sul, a primavera marca também o início da temporada de remates, que tem como estrelas os reprodutores. O trabalho de seleção começa bem antes dos animais entrarem em pista:

– São escolhidos os que se diferenciam por biotipo e genética – explica o leiloeiro Marcelo Silva.

Para este ano, Silva aposta em negócios, "dentro da realidade", com médias entre 10% e 15% menores, reflexo do mercado em 2017.

Hoje, a JMT Agropecuária realiza remate, na UFSM, em Santa Maria. Serão ofertados 131 reprodutores (na foto acima, o touro Al Capone, do primeiro lote) e cem fêmeas brangus. Peti Waihrich, administrador da cabanha, diz que criadores do Centro-Oestre estão entre os compradores:

– Os frigoríficos estão estimulando os cruzamentos de nelore com raças britânicas, justamente pela valorização da carne de qualidade.

ORDEM NOS REMATES

Por uma estratégia estabelecida pelos leiloeiros, a ordem de entrada dos animais nos remates tem relação com a valorização esperada. Os lotes mais valiosos costumam ser os primeiros a entrarem em pista.

PRIMAVERA

Os remates da estação priorizam reprodutores. É porque as vacas entram no ciclo reprodutivo nos períodos de maior insolação, que no RS começa em setembro. E aí é preciso touros de excelência genética, que se reverterá em carne de qualidade.

OUTONO

Os terneiros costumam ser vendidos nos leilões de outono. É porque a partir do início de abril costuma ocorrer o desmame. Esses animais estão aptos a serem negociados.

MAIS PARA O FIM

Compradores do Centro-Oeste costumam deixar as compras mais para o final dos leilões. Como adquirem quantidades maiores de animais, dão preferência aos de médias menores.

Custeio do arroz prorrogado

Produtores de arroz podem respirar mais aliviados. Conforme a Federação das Associações de Arrozeiros do Estado (Federarroz), o Banco do Brasil prorrogou as parcelas de financiamentos de custeio que venciam ontem. O saldo ficará para outubro, quando o produtor terá a opção de parcelar em três vezes (novembro, janeiro e fevereiro) ou contratar Financiamento de Estocagem de Produtos com Preço Mínimo (Fepm).

– Essa medida tira a pressão de oferta agora, segue o fluxo de caixa do produtor e garante ao banco mais segurança de adimplência – observa Henrique Dornelles, presidente da Federarroz.

ENTREVISTA

Fausto De Sanctis

Desembargador do TRF3

"É um dos caminhos fáceis para ilicitudes"

Desembargador federal do TRF3, Fausto De Sanctis ficou conhecido por sua atuação como juiz – foi um dos primeiros a levar à prisão responsáveis por crimes de colarinho branco. Dia 29, falará em seminário nacional, no Rio, sobre lavagem de dinheiro por meio do agronegócio. Ele conversou com a coluna.

Qual o jeito mais utilizado para a lavagem de dinheiro por meio do agronegócio?

O agronegócio diante de seu gigantismo e difícil controle é um dos caminhos fáceis para ilicitudes. A dificuldade até mesmo física de acesso para a constatação do que é registrado e a sua realidade, e a fiscalização insuficiente são fatores que facilitam a prática de crimes.

Que mecanismos são utilizados para mascarar a lavagem de dinheiro nesses casos?

A prática da conduta chamada "vaca de papel", ou seja, a falsa existência de gado para "vendê- lo" posteriormente constitui uma maneira de legitimar dinheiro obtido ilicitamente.

Como a Justiça consegue detectar?

Deve haver confronto com a quantidade de animal registrado e a quantidade de vacinas aplicadas. Devem ser oficiados os órgãos estaduais competentes, secretarias estaduais de agricultura, e analisar os dados.

CAMPO ABERTO

gisele.loeblein@zerohora.com.br

gauchazh.com/giseleloeblein

Fonte : Zero Hora

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