CAMPO ABERTO | Dois pesos e duas medidas para a variação da carne

Em um Estado que tem na pecuária uma das bases da sua produção, o assunto preço da carne não poderia faltar à mesa do balanço da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul). Sim, a valorização da proteína animal, junto com a de produtos como soja e milho, é um dos fatores que alimentam as projeções de um PIB do setor de 7,5% em 2020. É um ritmo chinês para a agropecuária gaúcha. E reflete avanço sobre avanço: o setor deve fechar 2019 com expansão de 8,64%.

– A história da China é similar à do agro brasileiro. Ambos tiveram crescimento expressivo em pouco tempo. O Brasil passou de importador a exportador – comparou o presidente da Farsul, Gedeão Pereira.

Há que se fazer algumas ponderações, no entanto, sobre o aumento da carne, observou o economista-chefe do Sistema Farsul, Antônio da Luz. Comparação feita entre os valores do boi gordo e da carne bovina no varejo, a partir de dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) da USP e do Centro de Estudos e Pesquisas Econômicas da UFRGS (Iepe), mostra descompasso entre as duas cifras. Entre junho de 2016 e setembro de 2018, a arroba teve recuo de 18,36%. No mesmo período, o preço para o consumidor caiu apenas 2%.

– Quando olhamos para isso, entendemos o consumidor. Está sendo chamado a pagar a alta de agora, mas não foi beneficiado na mesma proporção por aquela baixa – observou Luz.

É isso que muitos pecuaristas têm ponderado agora quando houve avanço expressivo – tanto na arroba quanto no balcão do supermercado. A atividade viveu período de grande desestímulo. Conjunto de fatores contribuiu para desvalorização de preços e renda, o que levou muitos a desistirem de produzir. Desde a crise econômica, que corroeu o poder de compra do brasileiro, passando pela Operação Carne Fraca e pela delação premiada dos donos da JBS.

O momento atual configura uma virada, alimentada pela demanda extra vinda da China, que vive surto de peste suína africana. Como o país asiático deve demorar entre três e cinco anos para recompor o rebanho suíno, o apetite deve se manter. Além disso, a perspectiva de melhora da economia brasileira, que traz impacto ao mercado doméstico, sustenta as projeções de que a carne ficará em um degrau acima.

– No final de fevereiro, março e abril teremos ampliação da oferta. Mas não acreditamos em mudança de patamar – pontuou o presidente da Farsul.

gisele.loeblein@zerohora.com.br 3218-4709

GISELE LOEBLEIN

Fonte: Zero Hora

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