CAMPO ABERTO – CAMPO ABERTO

Alta da carne em 2019: a exceção da exceção

Um dos principais assuntos do país no momento, o preço da carne foi parar na mesa do balanço anual da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), em Brasília. Aliás, o mercado externo teve destaque na análise do ano que passou e do que está por vir. O superintendente técnico, Bruno Lucchi, tranquilizou: não faltará carne. Com a valorização de preços, o produtor se sentirá estimulado para investir em tecnologia, o que amplia escala e melhora qualidade do produto.

– O que ocorreu (neste ano) foi a exceção da exceção, tanto em relação à China quanto ao mercado doméstico, vários fatores juntos. Oferta e demanda se equilibrarão – acrescentou.

Peste suína africana na China, com impacto sobre o apetite do país, oferta reprimida e demanda em recuperação são as razões para que se chegasse ao cenário atual de preços, tanto no valor da arroba do boi gordo (unidade de medida que equivale a 15 quilos) quanto no do quilo de carne ao consumidor.

Na bovina (veja abaixo), 24,6% do produto brasileiro foi enviado ao país asiático. No caso da suína, o percentual é de 40%, segundo dados das exportações de janeiro a novembro deste ano. Internamente, o aumento do abate de fêmeas nos últimos três anos ajuda a entender o cenário de oferta reprimida. Em relação à demanda, o superintendente pontuou melhora do cenário econômico.

China, União Europeia, Estados Unidos, Japão e Irã foram os cinco principais parceiros do agronegócio brasileiro, concentrando 62,6% da receita. Superintendente de relações internacionais da CNA, Lígia Dutra reforçou que a entidade atua para abertura de mais mercados e ampliação com parceiros tradicionais. A conquista de novos destinos e o acordo comercial firmado entre UE e Mercosul são pontos de destaque do ano:

– Participar do mercado internacional é sempre uma via de mão dupla. A gente abre e recebe abertura. Precisamos estar preparados para isso.

Suspensão, só enquanto durar a greve

Com a publicação no Diário Oficial do Estado, ontem, está valendo a determinação da suspensão da aplicação do herbicida 2,4-D no Estado. Só enquanto durar a greve dos servidores da Secretaria da Agricultura. A pasta busca recurso jurídico para o retorno em razão da essencialidade das atividades.

Laudos apontaram deriva em 92,3% de 143 amostras, em 41 municípios. Em 16 estavam em vigência regras para uso.

A medida tem alcance limitado: é condicionada à paralisação. E a área em que ainda falta ser aplicado é de 10% da total.

Teste a campo

A regulamentação para uso de drones pulverizadores será aperfeiçoada em 2020, o que deve estimular ainda mais a utilização nas lavouras. O Ministério da Agricultura, que regulamenta o uso de aviões agrícolas, abrirá consulta pública para adoção de regras para veículos não tripulados no próximo ano.

De olho na expansão de mercado, o Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola (Sindag) desenvolve pesquisa para uso de drones a produção de grãos. O projeto começou neste ano, a partir de convênio com a Universidade de Cruz Alta (Unicruz). A escolha do município não foi ao acaso.

– Cruz Alta está localizada em uma das principais regiões produtoras de soja do Rio Grande do Sul, e vem atraindo companhias da área de aviação agrícola pelo potencial de crescimento – observa Gabriel Colle, diretor-executivo do Sindag.

Hoje, o município tem quatro empresas de serviços aeroagrícolas, e mais duas devem chegar até 2021. Outras estão se instalando em Erechim e Passo Fundo, no norte do Estado.

O setor se profissionalizou, aponta Colle. Após registrar quase cem multas entre 2015 e 2016, não teve infração por aplicação até ontem:

– Isso é resultado de tecnologia, nível de controle, treinamentos e trabalho de conscientização e fiscalização.

NO RADAR

O grande número de indeferimentos da aposentadoria de agricultores volta à pauta em audiência pública marcada para hoje na Comissão de Agricultura da Câmara. O debate foi proposto pelo deputado Heitor Schuch (PSB-RS), que já havia tratado do assunto em reunião, no dia 20 de novembro, com o secretário especial de Previdência e Trabalho, Rogério Marinho, e representantes de Fetag-RS e Contag.

De lá para cá, técnicos têm se reunido para avaliar questões apontadas. Há expectativa de que possam ser anunciadas alterações no processo.

Mexeu com toda indústria

O impacto da elevada demanda da China por carne brasileira mexe até com os frigoríficos que não enviam produto para lá. É o caso do gaúcho Silva, de Santa Maria.

– O preço subiu para todo mundo. Isso acontece porque as indústrias que não exportam para lá tiveram que brigar com as habilitadas na compra deste boi. Ou seja, o preço pago pela matéria-prima subiu para todo mundo – observa Gabriel Moraes, diretor comercial do Frigorífico Silva.

O dirigente faz coro aos que preveem cenário de preços mais estáveis para o ano que vem, mas não nos patamares antigos. Porque antes, completa, havia excedente de carne:

– Como não havia essa demanda aquecida estrangeira, sobrava produto no mercado interno e, por consequência, pecuarista insatisfeito com o boi superdesvalorizado.

gisele.loeblein@zerohora.com.br 3218-4709

GISELE LOEBLEIN

Fonte : Zero Hora