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CAMPO ABERTO

É preciso se preparar em anos de tempo bom

O auditório lotado da Famurs, em Porto Alegre, na tarde de ontem, é um demonstrativo da preocupação que o quadro atual de estiagem causa nos municípios do Rio Grande do Sul. Prefeitos do Interior e representantes de entidades ligadas ao setor produtivo participaram de reunião para tratar do tema. A Emater apresentou projeções de perdas em relação à estimativa do início do ciclo (leia mais na página 18). O milho está entre as culturas mais afetadas. A distribuição dos efeitos negativos, no entanto, não é uniforme, nem dentro de cada uma das 12 regionais da Emater.

Além do quadro atual, outra informação destacada também traz inquietação. O histórico gaúcho indica recorrência de problemas de falta de chuva nesta época do ano. De cada 10 anos, sete têm restrições hídricas, mas sem grandes impactos. Em três, a falta de chuva acaba tendo efeitos sobre a economia, observou o secretário de Agricultura em exercício, Luiz Fernando Rodriguez Júnior. A última seca com prejuízos generalizados foi em 2012. Depois disso, vieram sete colheitas cheias, inclusive com recordes de produção.

Isso deveria ter acendido um alerta. Pelo contrário, fez ações que ajudam a mitigar os danos da falta de chuva ficarem em segundo plano. Um exemplo é o Programa Mais Água, Mais Renda, voltado à irrigação, com previsão de subvenção, criado em 2012. O número de projetos – e a área contemplada – veio minguando ao longo dos últimos anos. Somou 21,01 mil hectares com 715 projetos em 2014, mas, desde então caiu, fechando 2019 com 165 projetos e 3,56 mil hectares. No total, o Estado soma no programa 86,1 mil hectares irrigados. A título de comparação, a área da atual safra é de 7,62 milhões de hectares.

– A discussão de programas de irrigação começa, mas para assim que chove – ponderou Carlos Joel da Silva, presidente da Federação dos Trabalhadores na Agricultura (Fetag-RS).

O Estado implementará medidas para tentar amenizar o problema atual. Mas as iniciativas chegam com o carro andando. Deverá ser difícil frear prejuízos a essa altura. Outro ponto fundamental, a contratação de seguro também precisa ser incentivada. Sob pena de depender de São Pedro para garantir uma boa colheita.

a área de milho colhida no rs soma 5% da total estimada para a cultura, de 777,42 mil hectares, aponta levantamento semanal da emater. Outros 24% estão na etapa de desenvolvimento vegetativo, 13% em floração, 31% em enchimento de grãos e 27% maduros.

NO RADAR

A crise entre Estados Unidos e Irã é acompanhada com cautela pelo Ministério da Agricultura. Tereza Cristina, titular da pasta, reconhece que há apreensão entre produtores de itens exportados ao Irã – milho, soja e farelo, carne bovina e açúcar, entre outros. Ela disse que "é um momento tenso para o mundo todo, mas isso ainda não nos afetou". O Brasil é o maior exportador de milho para o Irã, com vendas de US$ 1 bilhão.

Análise móvel

Foi a bordo de unidade móvel que fiscais estaduais agropecuários realizaram ação de fiscalização de azeites de oliva extravirgem em oito capitais brasileiras. O projeto-piloto foi concluído pouco antes do Natal, justamente porque no período de final de ano o produto está em alta.

Chefe do serviço de inspeção vegetal da Superintendência Federal da Agricultura no RS, Helena Pan Rugeri explica que a unidade móvel foi viabilizada pelo Laboratório Federal de Defesa Agropecuária do Estado. Foram percorridos RS, SC, PR, RJ, SP, ES, MG e GO. A parada era em centros de distribuição e supermercados.

– Fazíamos a coleta, analisávamos e, em caso de não conformidade, emitíamos laudo e entregávamos o documento – explica Helena.

Das 187 análises feitas, apenas em seis amostras havia inconformidades.

Reflexos na pecuária

A falta de chuva e o calor excessivo também afetam a pecuária. Na de leite, um dos problemas são as perdas no milho destinado à silagem, usada na alimentação do rebanho. A Associação dos Produtores de Gado Holandês (Gadolando) tem recebido relatos do problema e alerta que o efeito será sentido nos próximos dois anos.

– A má alimentação do animal terá consequências no futuro. Muitos produtores que estavam se reorganizando, ajustando as matrizes, terão de mudar o rumo de seus investimentos para a compra de alimentação de qualidade – observa Marcos Tang, presidente da Gadolando.

O dirigente lembra que a produção de silagem serve para formar estoque de um ano a um ano e meio e que não há cobertura de seguro para esse produto. Como alternativa, alguns produtores deverão se propor a fazer uma safrinha de milho, caso a chuva retorne. Levantamento da Emater sobre perdas, apontava redução na produção de leite de 10% na regional de Caxias do Sul e de 20% na de Porto Alegre.

Da mesma forma, a falta de umidade reduz oferta e qualidade das pastagens que servem para alimentar o gado de corte.

– Novilhas e vacas de primeira cria sofrem com a alimentação insuficiente. As mães perdem a condição corporal e isso tem reflexo no terneiro que amamentam e na taxa de repetição de cria – explica Lucas Hax, médico veterinário e diretor técnico da Associação Brasileira de Criadores de Devon.

Podem haver ainda efeitos à saúde do animal, em razão da pouca disponibilidade de água e do excesso de calor.

gisele.loeblein@zerohora.com.br 3218-4709

GISELE LOEBLEIN

Fonte: Zero Hora

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