Campanha por queda da Selic bate nos juros

Fonte: Valor | Por Eduardo Campos

O rouba monte continua no mercado de juros futuros. O desavisado que montou posição comprada acreditando que as taxas tinham atingido o limite de baixa foi literalmente atropelado na sexta-feira.

Os contratos simplesmente derreteram. O vencimento para janeiro de 2013 caiu 0,20 ponto percentual, para 11,19%, menor taxa desde 26 de maço de 2009.

Com isso, a chance de corte da Selic na quarta-feira, que havia caído para 20%, voltou a passar de 50%. E dependendo do vértice observado, o mercado chega a sugerir três cortes de meio ponto percentual na Selic, que hoje vale 12,50% ao ano.

Pergunta: o que mudou entre quinta e sexta-feira a ponto de promover tal mudança de expectativas? Resposta: nada.

Contrato futuro derrete, mesmo com visão de Selic estável

"O mercado está simplesmente arrastando os comprados. E quando isso acontece ninguém fica na frente", diz um gestor, destacando que quando se questionam os economistas e analistas, a visão preponderante ainda é de estabilidade do juro em 12,50% até o fim do ano.

Pesquisa feita pelo Valor mostra que 30 entre 33 economistas consultados não esperam alteração do juro ainda em 2011.

Agora, se quase ninguém acredita em corte de juros, o que explica tal formato da curva?

Há quem veja um movimento natural, porém exagerado, de baixa, já que em um mundo que crescerá menos, nada mais natural que estimar corte de juros.

Outra explicação é que a taxa pré-fixada é a melhor opção para se apostar na piora de cenário mundial.

Mas uma percepção que cresce (e muito) é a de que o mercado está respondendo a essa campanha do governo, que dia sim e outro também fala que esse é o momento para cortar juros, mesmo sem respaldo claro tanto na atividade/inflação doméstica quanto na piora externa.

Como bem lembrou outro gestor, o cenário externo não está definido, o fim do mundo não está na esquina, o próprio presidente do Federal Reserve (Fed), banco central americano, Ben Bernanke, indicou isso ao não acenar medidas de estímulo na sexta-feira, em seu esperado discurso em Jackson Hole.

"Mas não adianta ir contra isso. É um movimento gerado pela vontade do governo, que vê uma oportunidade nesse quadro internacional", explica.

Toda a vez que aparece algum "motivo" para queda de juros, o governo transmite a ideia de que tem de correr para cortar. "Mas o que deixa o mercado desconfortável é o fato de não existir motivo para cortar", diz.

Ainda de acordo com esse especialista, 2008 foi uma oportunidade perdida. Não por culpa exclusiva do Banco Central (BC), que pode ter demorado a atuar, mas sim porque a resposta escolhida foi a fiscal.

Hoje, o cenário não é o mesmo de 2008. Não há ruptura no mercado financeiro, nem se vê a produção industrial em países desenvolvidos caindo 20% de um mês para outro (caso japonês em 2008).

No meio dessa campanha do governo, o gestor encontra um ponto correto e outro errado. O que está correto é o mix de políticas. Lado fiscal forte e intenção de juro fraco. O que parece errado é essa ideia de urgência, de que se precisa abrir não do gerenciamento do cenário de crescimento e inflação.

Deixando de lado esse debate e olhando para o lado prático do mercado, o que parece fato, segundo o gestor, é que esses preços que vemos nos juros futuros não vão ficar assim. "Ou temos um ciclo de corte com a chegada do ‘fim do mundo’ ou a curva vai recuperar prêmio. Ou é muito corte de juro ou não é corte nenhum", diz.

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Não por acaso está cada vez mais caro comprar uma opção para estourar de ganhar dinheiro caso a Selic fique em 12,50% até o fim do ano.

Um aceno do BC, que parece estar faltando em meio a essa campanha do governo, deve vir na quarta-feira, após a decisão do Copom. Mas uma observação mais elaborada, só com a ata.

Eduardo Campos é repórter

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