Caminhoneiro terá crédito para comprar pneu e manter veículo

Antônio Cruz/Agência Brasil

Os ministros Tarcísio Freitas e Onyx Lorenzoni anunciam o pacote de medidas para os caminhoneiros: temor de nova greve

O governo anunciou ontem uma linha de crédito do BNDES, de R$ 500 milhões, para manutenção e compra de pneus por caminhoneiros autônomos, além de R$ 2 bilhões para obras de infraestrutura e manutenção de rodovias. Os anúncios, parte de um pacote voltado para a categoria, ocorreram m depois de uma reunião na véspera na Casa Civil, diante da possibilidade de uma nova paralisação de caminhoneiros menos de um ano após a greve geral que paralisou o país e prejudicou a retomada do crescimento.

Horas depois do anúncio, feito em entrevista coletiva na presença de quatro ministros, a Caixa informou a flexibilização das condições de outra linha de crédito que beneficia os caminhoneiros, BNDES Finame. Essa linha permitirá agora financiar 100% do valor de ônibus e caminhões, ante os 80% atuais.

Outras vantagens oferecidas pela Caixa incluem capital de giro, com recursos do PIS, com juros de 0,83% ao mês e isenção de IOF.

Sobre a linha de crédito para compra de pneus e manutenção, o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, disse que "está sendo desenhada pelo BNDES". A princípio, Banco do Brasil e Caixa vão operar o financiamento, enquanto os bancos privados entrarão em uma etapa posterior. Ontem o BNDES assegurou que esse financiamento não será subsidiado.

Cada caminhoneiro poderá se financiar com até R$ 30 mil, e o crédito estará limitado a quem tem dois caminhões por CPF.

Onyx acrescentou ser fundamental trabalhar com manutenção de rodovias e concluir obras emblemáticas. "Manutenção de rodovias salva vidas. Não podemos admitir a BR-163 parada", afirmou, acrescentando que a pavimentação dessa rodovia, que liga o norte de Mato Grosso aos portos do Pará será um grande alívio, com redução de filas e melhora da qualidade de vida do caminhoneiro.

O governo classificou as medidas como "estruturantes", mas nem todas foram consensuais.

A mais controversa é a linha de crédito para a compra de pneus e manutenção de caminhões. Segundo apurou o Valor, alguns presentes à reunião de segunda-feira, inclusive ministros, salientaram que oferecer mais crédito aos caminhoneiros é uma medida arriscada.

Uma fonte salientou que a categoria carrega uma significativa inadimplência por causa de financiamentos passados. O argumento decisivo que para que o governo anunciasse a linha de crédito foi que os valores são relativamente pequenos. Em contraponto, mesmo os que apoiaram a ação, ressaltaram que essa é uma medida que não resolve o problema que é, em suma, de excesso de oferta de caminhões e baixa demanda por fretes.

Outra medida, que já havia sido anunciada anteriormente, é a criação do Cartão Caminhoneiro, pré-pago, em que os profissionais colocam créditos com um valor fixo para o diesel. O produto tem como objetivo dar previsibilidade, diante da flutuação do preço do combustível.

Questionados, os ministros não souberam explicar quem arcará com uma eventual diferença entre o preço do diesel pago no Cartão Caminhoneiro e o valor na bomba no ato do abastecimento. Disseram que essa decisão caberá à Petrobras, que, segundo eles, foi quem idealizou o cartão. Segundo fonte ouvida pelo Valor, a Petrobras deve fazer operações de hedge para se proteger desse risco.

Indagada pelo Valor a respeito, a Petrobras respondeu: "O modelo para implantação e operação do Cartão Caminhoneiro está em estudos. Outros detalhes serão informados oportunamente, quando o produto for lançado, o que deverá ocorrer até o fim de junho".

O governo anunciou também mudanças na Carteira Nacional de Habilitação (CNH) e a criação de um documento eletrônico de transporte, na tentativa de agradar os caminhoneiros e evitar a greve. A CNH passará a ser renovada a cada dez anos para pessoas com menos de 50 anos, e não a cada cinco anos, como ocorre atualmente. Essa medida visa reduzir os custos, segundo Freitas.

O ministro da infraestrutura informou que o documento eletrônico "vai congregar uma série de documentos", 20 ao todo. E disse que a medida, além de eliminar a burocracia e a necessidade de intermediários, visa fazer uma ligação direta entre os transportadores e os embarcadores das mercadorias.

"Essa simplificação elimina o intermediário. Muitas vezes o caminhoneiro, para fazer o transporte, precisa de despachantes", disse. "A tecnologia de informação vai nos ajudar a ‘linkar’ o caminhoneiro ao embarcador para combater esse excesso de oferta. Esse problema vai diminuindo com o tempo com o crescimento econômico que certamente virá."

Onyx justificou as medidas dizendo que "o presidente sempre teve na sua vida parlamentar muita proximidade com os caminhoneiros autônomos". Para ele, o governo tenta reverter, com leilões de portos e ferrovias, a opção feita pelo Brasil pelo modal de transporte rodoviário. "Mas nós temos que lidar com uma realidade, que é a escolha que o Brasil fez muitas décadas atrás", afirmou.

Participaram da entrevista coletiva, além de Onyx e Freitas, os ministros do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Augusto Heleno, e da Secretaria Geral, Floriano Peixoto.

Por Fabio Murakawa, Carla Araújo, Edna Simão e Cristiano Zaia | De Brasília

Fonte : Valor