CAI O PREÇO DA TERRA EM REGIÃO DE CONFLITO

Demarcações emperram venda de propriedades

Além de prejudicar a convivência entre índios e agricultores, que a cada novo dia sem solução fica mais hostil, o polêmico processo demarcatório de terras se reflete nos negócios envolvendo propriedades rurais no Rio Grande do Sul. Efeito colateral que tem tirado o sono inclusive de prefeitos, uma vez que baixou a arrecadação com o Imposto sobre a Transmissão de Bens Imóveis (ITBI). ‘Para um município pequeno como o nosso, tu não tens ideia da falta que isso faz’, disse o prefeito Selso Pellin, de Faxinalzinho, município onde os 2,7 mil hectares pretendidos por índios caingangue ainda nem foram demarcados. ‘O município será recortado ao meio, pois a área delimitada pela Funai fica no Centro da cidade. Então, vai virar um barril de pólvora, onde ninguém vai querer morar perto, nem pela metade do preço.’

Presidente do Sindicato Rural de Getúlio Vargas, Sidnei Beledelli, estima entre 30% e 40% o índice de recuo no valor das terras no Norte do Estado. A área do Mato Preto, que abrange parte do município e também de Erechim e Erebango tem 657 hectares de reserva e aguarda por confirmação de acordo para homologação. E disse que donos de propriedades localizadas num raio de até 5 quilômetros da área indígena não encontram interessados por conta do risco de ampliação da reserva. ‘Se hoje são 4 mil hectares, amanhã podem ser 5 mil. Agora, pergunta se alguém topa viver sob essa constante ameaça? Óbvio que não’, afirmou, para logo em seguida arrematar: ‘Por isso que há mais de cinco anos que não sai negócio por aqui’.

O setor imobiliário endossa a retração no valor das terras. Corretor de Passo Fundo, Paulo Roberto Silva afirma que, de três anos para cá, percebeu recuo de 10% na demanda por arrendamento. ‘Até me habituei a responder a pergunta: ‘É área de conflito?’. É uma situação que intimida e faz o interessado declinar do negócio, mesmo que a terra tenha agradado’, declarou. ‘Ficou complicado (fechar negócio), porque quem procura quer puxar para baixo o máximo possível e quem vende não arreda o pé do valor que acha justo’, disse. Com atuação no mercado imobiliário de Erechim há 28 anos, Clemente Pierozan disse que, nas raras vezes em que aparece oferta, esta é sempre de 15% a 20% aquém do valor pedido pelo imóvel. ‘De região em conflito todo mundo quer distância’, completou.

Segundo o presidente da Comissão de Assuntos Fundiários da Farsul, Paulo Ricardo de Souza Dias, a desvalorização das terras nos estados da Bahia e do Mato Grosso do Sul é ainda mais acentuada. ‘Tenho informação que nem quem está torrando a terra, com o intuito de arrumar dinheiro para tratar a saúde, consegue vender’, disse.

Fonte: Correio do Povo

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