CAFÉ – Pesquisador propõe fundo de US$ 10 bi para reduzir pobreza na cafeicultura

Segundo Jeffrey Sachs, iniciativa seria liderada pela indústria e recursos dariam suporte a estratégias de desenvolvimento sustentável

Jeffrey-Sachs-Centro-Estudos-Sustentabilidade-Instituto-La-Terra-Universidade-Columbia (Foto: Divulgação/ Universidade de Columbia)Jeffrey Sachs, diretor do Centro de Estudos de Sustentabilidade do Instituto La Terra da Universidade de Columbia (Foto: Divulgação/ Universidade de Columbia)

O diretor do Centro de Estudos de Sustentabilidade do Instituto La Terra da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, Jeffrey Sachs, propôs, nesta quarta-feira (10/7), a criação de um fundo de US$ 10 bilhões para fomentar a cafeicultura, especialmente em países onde há maior nível de pobreza entre os agricultores. Segundo ele, a iniciativa deve ser liderada pela própria indústria de café e envolver também governos e investidores privados.

“A indústria já tem suas iniciativas, mas, individualmente, são pequenas e não resolvem o problema. É possível que a indústria se una para fazer algo não competitivo. Não apenas para produtores específicos de quem eles compram, mas de todo o mundo”, disse Sachs, pontuando que esse fundo teria uma gestão própria. “Se eles começarem a fazer, outros entrarão”, acrescentou. Em palestra no 2º Fórum Mundial dos Produtores de Café, em Campinas (SP), Sachs explicou que esse fundo seria utilizado para financiar o que chamou de estratégias nacionais de desenvolvimento da cafeicultura. Essas estratégias, por sua vez, seriam referenciadas nas Metas de Desenvolvimento Sustentável definidas pela Organização das Nações Unidas (ONU), da qual o próprio Sachs é consultor.

Só a indústria de café contribuiria com um quarto do valor, o equivalente a US$ 2,5 bilhões, concentrados no que chamou de Fundo Global do Café. Um montante que, segundo Sachs, é pouco, considerado a lucratividade atual nesta parte da cadeia produtiva. Os outros três quartos do fundo seriam de investimentos públicos e privados, com os governos priorizando gastos sociais nas regiões cafeeiras.

“Creio que esse fundo poderia atender a qualquer país que tivesse um boa proposta, mas acredito que a prioridade deva ser as regiões de maior pobreza”, ponderou, destacando ainda não ser possível definir a forma como esses recursos, se obtidos, poderiam ser aplicados.

Sachs acredita que o conceito de desenvolvimento sustentável é o ponto de partida para entender as necessidades enfrentadas pelos produtores de café pelo mundo. É preciso se pensar na garantia de renda; inclusão social, com acesso da população às necessidades básicas, como saúde e educação; e preservação ambiental, com o setor não contribuindo com o desmatamento e mitigando os riscos relacionados ao meio ambiente para a cafeicultura em todo o mundo.

“Desenvolvimento sustentável significa pegar essas diretrizes e perguntar como o setor de café pode ser mais próspero. Claramente, o setor tem desafios gigantes. Há muita pobreza, o que tem piorado por conta dos preços baixos. Falta acesso a serviços sociais básicos em muitas regiões produtoras”, resumiu Sachs.

Ele lembrou que a demanda por café tem aumentado e tende a continuar. Consumidores de poder aquisitivo mais alto tendem a pagar mais pela bebida e ainda há a expectativa de maior consumo na China, por exemplo. Segundo Sachs, esse negócio tem sido lucrativo para a indústria que, além de agregar valor, está mais concentrada, mas não chega ao produtor.

“As pessoas estão dispostas a pagar mais, mas uma parcela maior deve chegar aos produtores para terem resiliência, melhorar sua produtividade e os serviços sociais nas regiões produtoras de café”, argumentou.

Sachs se disse surpreso com a discrepância de produtividade entre Brasil e Vietnã, os maiores produtores mundiais, e os demais países de onde o mercado origina o grão. Segundo ele, os dois países juntos detêm 22% da área de cafezais e 50% da produção, com o dobro do rendimento médio mundial. Essa maior eficiência é a principal causa dos atuais patamares de preço.

Neste cenário, quem é menos produtivo sente mais os efeitos de desequilíbrios no mercado. “Qualquer país que não passar por um aumento de produtividade sofrerá com os preços baixos. O café, como indústria, não está em crise, porque os grãos são comprados a preços baixos, mas o valor de venda está melhor”, pontuou.

Desta forma, diz ele, enquanto a indústria consegue manter margens elevadas, a pobreza no campo aumenta nas regiões produtoras. Não encontrar uma solução para esse problema pode ser prejudicial também para a própria indústria e o varejo de café. O risco maior é acabar ficando dependente apenas do Brasil e do Vietnã que, pela sua maior eficiência, sofrem menos com choques de preços.

As mudanças climáticas trazem um risco a mais, alertou Sachs. Todas as regiões produtoras estão passando por um aumento de temperatura, que vem acelerando nos últimos anos, o que tende a inviabilizar a produção em parte das áreas de café arábica e robusta. É possível buscar novas locais de produção, mas só seria viável para quem tiver capital. Assim, regiões mais pobres poderiam sair no mercado.

Daí a necessidade de se investir no aumento da produtividade e na melhoria das condições sociais da regiões cafeeiras de uma forma geral. Na visão de Jeffrey Sachs, além de promover o acesso a serviços básicos, é preciso promover o acesso ao crédito, insumos, mecanismos de mercado e conhecimento científico, além de seguro para mitigar riscos climáticos.

“O conhecimento científico tem que ser compartilhado. O Brasil tem a melhor ciência de café do mundo e deveria tentar espalhar esse conhecimento para outras regiões do mundo”, exemplificou o pesquisador.

POR RAPHAEL SALOMÃO, DE CAMPINAS (SP)

Fonte : Globo Rural