CAFÉ – Alta no preço e mercado favorável impulsionam café conilon no Brasil

Valorização do grão, associada à melhoria de qualidade e investimentos em pesquisa, têm tornado a variedade uma alternativa ao arábica

Foi do produtor Luís Carlos Gomes que surgiu a ideia de um projeto de café conilon especial. Compartilhada com a Nescafé, a proposta virou realidade com outros nove produtores e, em cerca de um ano, as lavouras resultaram em uma produção premium e com pontuação notável pela Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA).

A iniciativa é apenas um exemplo do potencial do café conilon voltado para o mercado interno. Além disso, uma conjuntura de fatores – do preço à oportunidades de mercado – tem impulsionado a variedade, tanto no ambiente internacional quanto nacional.

Plantação de Robusta Amazônico (Foto: Embrapa/Reprodução)

Plantação do café Robusta Amazônico (Foto: Embrapa/Reprodução)

De acordo com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), o café apresentou alta nos preços internos, influenciado pela valorização na bolsa de Londres, à medida que o Vietnã – maior produtor de conilon no mundo – está com dificuldade nas exportações devido à falta de contêineres para escoamento da produção.

O resultado de mercado é uma variação anual de preços de 43,13%, segundo levantamento da Conab no início de julho, que aponta US$ 1.190,40 a tonelada do conilon em Londres no acumulado dos últimos 12 meses. Já o preço pago ao produtor, ainda segundo a companhia, é de R$ 325 por saca de 60 quilos, com base em São Gabriel da Palha, no Espírito Santo.

O diretor executivo da Associação Brasileira da Indústria de Cafés (Abic), Celírio Inácio, aponta um preço mais favorável ao cafeicultor, o que também contribui para o cenário de maior interesse pela variedade no campo. Segundo ele, o valor pago tem variado entre R$ 450/saca e R$ 510/saca, além de ter um custo de produção menor.

“Há uma estimativa de crescimento de até 16% na produção do robusta/conilon, segundo previsões oficiais da Conab, frente à estimativa de queda para o arábica. Com este cenário de maior disponibilidade e preços mais competitivos, naturalmente, a indústria de torrado e moído é estimulada a aumentar a participação da espécie canéfora em seus blends com arábica”, comenta Inácio.

Majoritariamente usado para ser exportado e/ou misturado com o arábica, o café conilon está com percentual maior nesta composição, diz o diretor da Abic. Para ele, a maior participação do robusta deve-se, principalmente, ao substancial aumento de sua qualidade.

No entanto, avalia ele, a mudança do mercado é gradativa, pois utilizar mais esta variedade implica em alterações no sabor da bebida. “Os consumidores terão que, aos poucos, se acostumar a pagar um pouco mais pelo seu café de qualidade”, comenta ao ressaltar que um quilo de café pode render até 200 xícaras.

Diferença no campo

No Sítio Oriente, em Governador Lindenberg (ES), Tatiele Dalfior, gestora da fazenda, sempre apostou no conilon e, de dois anos para cá, tem percebido o mercado mais aquecido. “Tanto que os compradores estão chegando com uma demanda que anteriormente a gente não tinha”, conta.

Tatiele Dalfior, produtora de café conilon no Espírito Santos (Foto: Acervo pessoal)

Tatiele Dalfior, produtora de café conilon no Espírito Santos (Foto: Acervo pessoal)

Se há demanda, a oferta tem que estar compatível com o que se deseja. Por isso, a produtora afirma que estão sendo feitas adequações necessárias para atender ao mercado, o que passa também pelo âmbito da pesquisa.

Tatiele cita instituições de estudo capixabas, assistência rural e as próprias cooperativas  investindo em pesquisa e desenvolvimento, com uma “visão analítica de progresso”. Isso significa, segundo ela, desenvolvimento de clones do conilon, com maturação precoce e tardia, e outras propriedades do café que levam a um produto de melhor qualidade.

“A planta é de fácil crescimento, bem adaptada a baixas altitudes, resistentes e não tem bianualidade, como na arábica”, completa.

A produtora ainda revela a vontade de que o robusta seja uma bebida pura e não mais um “coadjuvante no blend do arábica”. E não está sozinha. Em conversa com outros produtores, diz ter percebido uma mudança de comportamento do cafeicultor em relação à variedade.

“Há uma consciência coletiva, principalmente na região noroeste capixaba, de agregar valor, tratar de forma diferente e com mais volume. O cuidado que se tem com o arábica há anos agora começa a ser aplicado ao conilon. O mercado passou a apreciar, porque começou-se a fazer um conilon melhor”, afirma.

MARIANA GRILLI

Fonte : Globo Rural

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