Cadeia da laranja pede apoio ao governo federal

Joao Brito/Valor / Joao Brito/Valor
Lohbauer: sem políticas públicas, milhões de caixas de laranja não terão comprador

Às vésperas do início do processamento da laranja colhida em São Paulo e no Triângulo Mineiro na temporada 2012/13 pelas grandes indústrias de suco, o cenário para a cadeia produtiva se deteriora a cada dia. Com os preços internacionais da commodity em baixa, os citricultores desalentados e a expectativa de que boa parte de mais uma grande safra simplesmente caia dos pomares e apodreça no chão sem compradores, os principais agentes do segmento ainda buscam alternativas para evitar que a crise se aprofunde.

Na quarta-feira, a Associação Nacional dos Fabricantes de Sucos Cítricos (CitrusBR), que reúne as três grandes empresas exportadoras do produto (Citrosuco / Citrovita, Cutrale e Louis Dreyfus), e representantes de produtores que fornecem a fruta para processamento se reúnem com o Ministério da Agricultura, em Brasília, em busca de saídas para amenizar a pressão. Uma delas é a prorrogação da Linha Especial de Crédito (LEC) lançada no ano passado para garantir, com o financiamento da estocagem de suco, o escoamento da colheita recorde de 2011/12.

Mas mesmo essa alternativa não será tão favorável agora, conforme reconheceu o presidente da CitrusBR, Christian Lohbauer, em encontro com jornalistas ontem em São Paulo. Quando a linha foi criada pelo governo federal, as cotações internacionais do suco ainda estavam elevadas e foi garantido ao citricultor um preço mínimo de R$ 10 por caixa de 40,8 quilos que fosse ser transformada no suco que seria estocado. Lohbauer não fala em valores agora, mas no segmento comenta-se que uma eventual prorrogação da LEC garantiria, no máximo, R$ 7 por caixa ao produtor, patamar insuficiente para cobrir os custos.

Em 2011, só a LEC permitiu que estivessem em estoque, em 31 de dezembro, 311 mil toneladas de suco, a partir da tomada, pelas indústrias, de R$ 320 milhões. Mas os preços estavam elevados em parte porque os estoques estavam baixos, o que não é mais verdade. E, diante de mais um ano de oferta gorda e consumo magro, a própria estrutura disponível para a armazenagem de um volume adicional muito grande é insuficiente. A CitrusBR estima que os estoques atingirão 556 mil toneladas já em junho, e a capacidade total disponível no Brasil é inferior a 900 mil toneladas. E, mesmo que houvesse espaço sobrando, estoques grandes demais significam queda de preço.

Na sexta-feira, na bolsa de Nova York, os contratos para setembro (que ocupam a segunda posição de entrega, normalmente a de maior liquidez), encerraram o pregão cotados a US$ 1,12 por libra-peso. Em 2012, a queda acumulada chegou a 33,73%, conforme cálculos do Valor Data. Nos últimos 12 meses até sexta (ontem não houve sessão em Nova York por causa de um feriado), o tombo chegou a 37,71%. Conforme a CitrusBR, a tonelada do suco brasileiro foi exportada em 2011, em média, por US$ 2.376, 34% acima da média de 2010. A tendência, tendo em vista a conjuntura, é de queda.

Além de a safra de São Paulo e do Triângulo Mineiro – considerado uma extensão do cinturão citrícola paulista – ter sido recorde em 2011/12 (428 milhões de caixas, segundo a CitrusBR) e de a nova temporada estar estimada pelas indústrias em 364 milhões, ainda um patamar muito superior à média histórica, o consumo em alguns dos principais mercados para o produto do Brasil não dá sinais de reação (ver tabela). "Mesmo se as indústrias fossem comprar toda essa laranja, não haveria onde colocar", disse Lohbauer. Em seus cálculos, as indústrias só "aguentarão" processar 247 milhões de caixas. A colheita poderá ser menor caso a estiagem que afeta algumas regiões produtoras perdure, mas até agora a seca só fez ampliar os teores de açúcar nas laranjas, o que eleva o rendimento industrial.

Com o apoio do governo para facilitar o escoamento também da fruta para mesa, a CitrusBR acredita que poderia ampliar as vendas nesse mercado, que giram em torno de 30 milhões de caixas por safra. Dessa forma, o excedente seria menor. No mais, a entidade fechou acordo com a Tetrapak para ter um diagnóstico sobre a queda do consumo em dez países e vai continuar a investir em campanhas de promoção do consumo de suco. E resta esperar que o novo Consecitrus, ambiente para produtores e indústrias negociarem preços e definirem suas estratégias, suplante divergências e saia do papel.

Fonte: Valor |

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