Cadeia da carne bovina deve mirar mercados emergentes, diz estudo

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Para Fava Neves, o governo precisa ter a habilidade de negociar tarifas melhores

O avanço da cadeia de carne bovina no Brasil está na conquista de mercados emergentes como Ásia, Oriente Médio e Norte da África, que devem incrementar suas compras em 5% neste ano, para 8,2 milhões de toneladas. A crise econômica que teve início nos EUA e depois chegou à Europa ajudou a acelerar a mudança do mapa do comércio mundial de alimentos. Se em 1965 os países em desenvolvimento representaram 15,4% das importações mundiais de carnes, em 2010 essa fatia chegou a 55,4%.

As perspectivas para o segmento dentro do próprio país não são menos otimistas, com a ascensão econômica da classe C, que representa 54% da população brasileira. Com renda mensal familiar média de R$ 2.900, o perfil desse consumidor mudou rapidamente, em especial na área de alimentação. Uma das mais significativas transformações está no aumento de 4,2% das compras de carne bovina de primeira, em especial filé mignon e picanha.

A avaliação sobre negócios e oportunidades dessa atividade que sempre teve papel fundamental no Brasil faz parte do estudo "Caminhos da Pecuária – Estratégias para a Cadeia Produtiva da Carne Bovina no Brasil", que foi encomendado pela Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec) e elaborado por uma tripla parceria entre USP, Centro de Pesquisa e Projetos em Marketing e Estratégia (Markestrat) e Scot Consultoria.

Segundo o levantamento, a cadeia movimentou US$ 167,8 bilhões em 2010 (ano-base do estudo), somando-se todas as vendas realizadas – como insumos utilizados nas fazendas, cercas e medicamentos e animais vendidos aos frigoríficos – até chegar nas carnes e subprodutos comercializados pelas indústrias. "É uma atividade que gera 7 milhões de empregos, US$ 16,5 bilhões de impostos agregados e faturamento de US$ 42 bilhões para os frigoríficos, dos quais 89% foram contabilizados no mercado interno e 11% com exportações", informa o autor Marcos Fava Neto, coordenador científico do Markestrat e professor da Faculdade de Economia e Administração (FEA) da USP em Ribeirão Preto (SP).

Para ele, mesmo que o principal mercado da indústria ainda seja o interno, que absorve 91% da produção nacional estimada em 9,17 milhões de toneladas – o segmento precisa intensificar o comércio Brasil afora, não apenas em emergentes tradicionais como Rússia e China. "Há forte ascensão no Egito, Irã, Malásia, Filipinas, entre outros". Fava Neves ressalta que o Brasil é atualmente o principal exportador de carne bovina do mundo, com 20% do mercado internacional e vendas que geraram faturamento de US$ 3,9 bilhões, resultado do comércio de 953 mil toneladas.

No entanto, para que ambos os mercados – interno e externo – não corram o risco de serem mal atendidos, o estudo da Abiec projeta aumento na produção em 2017 para 14,9 milhões de toneladas, com excedente de cerca de 5,3 milhões de toneladas. Segundo Fava Neves, muitas razões podem ser atribuídas para este crescimento, incluindo crédito rural para a renovação dos rebanhos e melhoria na genética e nas pastagens que vão aumentar o tamanho das criações e permitir maior oferta de animais prontos para o abate. "Alguns frigoríficos têm feito parceria com produtores para aumentar o número de animais confinados e mantê-los prontos para o abate durante todo o ano", informa.

Mas o estudo sobre a cadeia produtiva não despreza os gargalos da pecuária nacional. Um deles é a queda nas exportações nos últimos cinco anos, especialmente para a União Europeia, que consome 8,19 milhões de toneladas por ano. A partir de 2008, os países do bloco impuseram medidas sanitárias mais rígidas para o Brasil. Por outro lado, os Estados Unidos apesar de serem os principais compradores de carne bovina do mundo, não importam carne in natura brasileira. "Por sua posição de exportador, o Brasil será sempre alvo de medidas protecionistas provenientes de países que não contam com a mesma competitividade agrícola", comenta Fava Neves. Entretanto, ele não ignora o fato de que países ricos reduziram o consumo nos últimos anos em decorrência de uma crise financeira que diminuiu taxas de crescimento econômico e teve reflexos importantes sobre o poder de compra dos consumidores nos EUA e na União Europeia.

Na análise do professor, a ampliação do mercado americano é fundamental porque ele é formado por mais de 300 milhões de habitantes. "Os Estados Unidos são o segundo maior importador de carne bovina do mundo, atrás apenas da União Europeia. Precisamos brigar por estes dois mercados e fortalecer os negócios com os países emergentes. Um não substitui o outro", comenta.

Na sua avaliação, essa disputa também esbarra na falta de aptidão do governo em negociar melhores tarifas. "O Brasil tem um peso muito maior no cenário internacional do que há dez anos", diz. Fava Neves se refere ao caso da União Europeia, que há três anos estabeleceu uma série de novas exigências para vendas de cortes nobres dentro da cota Hilton – que tem preços mais atraentes no mercado internacional -, o que fez com que o país conseguisse cumprir menos de 10% do volume de 10 mil toneladas a que tinha direito entre os anos de 2009 e 2010.

Outro problema está no fato de a carne ainda ser comercializada em grande volume como commodity, sem diferenciação. "Cada vez mais, os consumidores querem carne segura, produzida com respeito ao meio ambiente, além de buscar cortes que propiciem preparo rápido e fácil", avalia. O professor cita o programa de marketing "Brazilian Beef", da Abiec, como uma ação que pode fortalecer a imagem da carne bovina nacional no exterior. No mesmo sentido vai uma linha de carne orgânica criada pela JBS, líder mundial em proteína animal, com o intuito de valorizar boas práticas agropecuárias com produtos finais sem agrotóxicos ou aditivos. "As indústrias precisam criar estratégias de comercialização para diferentes clientelas", aconselha Fava Neves.

O estudo aponta que o aumento do consumo mundial será suprido por Brasil e Índia – que deve aumentar em 7% sua produção, para 3,3 milhões de toneladas em 2012 -, que têm condições de se consolidarem como fornecedores regulares de carne bovina para o mundo. "A quantidade de animais vem diminuindo nos países com os maiores rebanhos e o brasileiro só vem aumentando". Entre os anos de 2000 e 2010, houve incremento de 28,3%, para 209,5 milhões de cabeças. Nos EUA, a redução foi de 5,3% (plantel de 93,8 milhões de animais) e na União Europeia foi de 9,6% (atuais 88,3 milhões de cabeças), conforme dados do estudo. Por outro lado, a Austrália crescerá para níveis quase recordes (1,38 milhão de toneladas), baseada em maiores ofertas e atendimento a mercados rentáveis como Japão, Coreia do Sul e EUA entre outros.

O estudo aponta que nos próximos dez anos os gastos com alimentação na China devem subir 50% e na Índia 78%, o que possivelmente influenciará no ritmo de aumento do consumo de carne bovina. Esses mercados permitirão ao Brasil manter sua posição de principal exportador no mundo. "O maior desafio é tentar sustentar esse comércio dirigido a países emergentes, apesar do interesse dessas nações fortalecerem sua própria produção local", avalia Fava Neves.

De acordo com a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), o consumo per capita de carnes nos países em desenvolvimento saltou de 9,02 quilos por ano, em 2000, para 9, 21 quilos por ano em 2010. "O Brasil tem papel fundamental neste cenário, pois será responsável por suprir quase metade dessa demanda que só tende a aumentar", observa Fava Neves.

Fonte: Valor | Por Janice Kiss | De São Paulo

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