Cacau sustentável avança em São Félix do Xingu

Felipe Milanez/Imaflora/Divulgação / Felipe Milanez/Imaflora/Divulgação

Seleção e quebra dos frutos em São Félix do Xingu, no Pará: com a ajuda do Imaflora, produção será inclusive exportada

O cacau está ajudando a reflorestar a Amazônia perdida para a pecuária em São Félix do Xingu, no Pará. Um grupo de pequenos produtores acaba de assinar um contrato de venda de 150 toneladas – ou R$ 1 milhão -, para uma processadora de cacau do interior de São Paulo que exporta até para a Suíça. Além do negócio, o importante da operação é o potencial de regeneração da floresta.

O acordo foi feito com a Camppax (Cooperativa Alternativa Mista dos Pequenos Produtores do Alto Xingu)e a Indústria Brasileira do Cacau (IBC), com intermediação do Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora), ONG que promove o uso sustentável dos recursos naturais.

"O cacau hoje é uma agricultura viável e sustentável. Além de contribuir com o ambiente, garante que o pequeno produtor fique dentro da sua área", diz Iron Eterno de Faria, agricultor de São Félix do Xingu. A Camppax tem quase 80 membros, todos produtores de cacau e gado. "A pecuária é o seguinte: a cada ano tem que desmatar para aumentar a pastagem. A cooperativa nasceu para dar rentabilidade para os produtores não terem que vender seu lote e ir para outra área, para desmatar", diz.

Nas estimativas de Eduardo Trevisan Gonçalves, gerente de projetos e secretário-executivo adjunto do Imaflora, cada hectare de cacau representa cerca de sete hectares de pecuária, em valor. O agricultor Faria diz que, se em um alqueire planta 5.300 pés de cacau e colhe 6 toneladas de cacau por ano, criará cinco cabeças de gado na mesma área. A arroba do boi na região está em R$ 100,00 e a do cacau, em R$ 110,00.

O projeto tem outro grande ganho colateral. "A gente planta com espécies nativas, que vão fazer sombra para o cacau. E o lugar, que era pastagem antiga, se torna floresta novamente", diz Faria. O cacau, nativo da Amazônia, é plantado nos Sistemas Agro Florestais (SAF). Fazendo sombra ao cacaueiro há seringueiras e castanheiras e árvores frutíferas como cajá, açaí e jaca.

O trabalho do Imaflora ocorre em várias frentes – na organização administrativa da cooperativa, assistência técnica aos produtores, no planejamento da propriedade. "Em São Félix, o desmatamento já passou", diz Gonçalves, do Imaflora. "Queremos recuperar através da agricultura. Não pretendemos transformar a fazenda em floresta, mas reflorestar onde for possível."

A iniciativa, que tem patrocínio da Petrobras, foi montada para conectar produtores a compradores que valorizem boas práticas, explica Marcos Nachtergaele, do Imaflora, um dos coordenadores do projeto. Conseguiram melhorias na qualidade do cacau, com processos na colheita e pós-colheita. "Começaram a separar as amêndoas para levar à fermentação, tirando as verdes, as já germinadas, as ruins", explica Nachtergaele.

São Félix passou anos no topo do ranking dos campeões de desmatamento. "Uma plantação de cacau no meio de pasto degradado conecta ambientes e simula uma floresta", diz Gonçalves. Os técnicos do Imaflora imaginam que será possível reflorestar várias Áreas de Proteção Permanente (APP) e ter, até 2016, 100 propriedades-modelo, com pecuária sustentável e produção de cacau de qualidade, Reserva Legal e APP restauradas.

Esse é o caminho da IBC, no interior paulista, que tem 8 anos mas foi fundada por descendentes de uma família com 85 anos de tradição. "Nosso cliente quer saber a origem do produto", diz Maurício Dati de Pinho, diretor comercial da esmagadora de cacau. Ele lembra que Costa do Marfim e Gana respondem por 40% da produção mundial, mas há denúncias de trabalho escravo e infantil.

A IBC exporta 10% da produção para a Suíça, Alemanha, Holanda, Israel, Austrália e Espanha e tem linhas certificadas. "Orgânicos são nossos produtos mais fortes de exportação", diz Pinho. A empresa valoriza esforços de rastreabilidade e origem em sua cadeia de fornecedores. "É um valor conhecer o ‘terroir’ da amêndoa", brinca.

A produção de São Félix é de cacau de boa qualidade. Pinho estima que o potencial é de 3 mil toneladas anuais. "Boa parte do cacau da Amazônia não tem agrotóxico mas não posso vender como orgânico porque não tem certificação", diz. "A tendência é que o cacau de boa origem valorize mais e então, podemos conseguir agregar mais valor", diz Nachtergaele.

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Fonte: Valor | Por Daniela Chiaretti | De São Paulo

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