Bunge ganha ainda mais musculatura no mercado de trigo

Silvia Costanti/Valor

Padilla: foco na produção de farinhas

Maior processadora de trigo do Brasil, a americana Bunge deu partida neste mês às operações de seu sétimo moinho no país, o último capítulo de um ciclo de investimentos no segmento que somou US$ 500 milhões nos últimos três anos.

Localizado em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, o novo Moinho Fluminense nasceu como uma das principais unidades do gênero no mercado brasileiro. Pode processar 600 mil toneladas do cereal por ano, ou mais de um quarto da capacidade conjunta das sete plantas da múlti no país, que soma cerca de 2 milhões de toneladas. Em média, a utilização das unidades gira em torno de 70% a 80%.

A nova unidade substitui o antigo Moinho Fluminense, de 1887, que foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e atualmente integra o complexo urbanístico Porto Maravilha. Mas a capacidade da planta de Duque de Caxias é mais de duas vezes superior que a da fábrica que foi aposentada.

"Com esse investimento, completamos um ciclo iniciado há três anos, em meio à crise, o que confirma o comprometimento da Bunge com o país no negócio de trigo", afirmou ao Valor o CEO da empresa no Brasil, Raul Padilla.

Esse ciclo de aportes começou em 2013, quando a companhia acertou a aquisição do moinho Vera Cruz, localizado no município mineiro de Santa Luzia, e se estendeu até 2015, com a compra do Moinho Pacífico, que pertencia ao empresário Lawrence Pih.

O Moinho Fluminense, que demandou R$ 500 milhões, foi o único projeto "greenfield" dessa onda de investimentos. Segundo Francisco Ganzer, diretor de trigo e ingredientes da Bunge Brasil, os recursos foram empregados para a adoção de "tecnologias de ponta" tanto na moagem do trigo como na parte de automação dos processos, redução do uso de energia e reúso de água da chuva.

"Temos tecnologias em outros moinhos, mas este é o destaque em nível global, é o ‘estado da arte’, porque contempla todas as tecnologias mais recentes", atestou Ganzer, ao Valor.

Ainda de acordo com o diretor, a Bunge não tem intenção de verticalizar suas operações na área de trigo. "Queremos focar em produção de farinhas. Acreditamos que é nossa especialização. Não vamos passar para massas ou biscoitos".

O início das operações no Moinho Fluminense também fortalece a posição da Bunge no tabuleiro do trigo no continente. Além de o Brasil passar a representar 60% de todas as operações globais da Bunge no processamento do cereal, o país também se consolida como líder do segmento na América Latina para a empresa.

A multinacional já vinha crescendo no segmento na região após adquirir, no México, o grupo Altex, em 2014, e o grupo Minsa, em agosto deste ano.

Como nos demais moinhos que a Bunge possui no Brasil, a produção de farinha de trigo da nova unidade será voltada ao mercado interno, tanto para indústrias de alimentos como para o segmento de panificação, entre outros. Embora a atividade econômica continue débil no país, Padilla avalia que esse mercado consumidor deverá ficar relativamente estável este ano e poderá ter crescimento, ainda que modesto, no próximo.

Para atender à ampla gama de consumidores que pretende atingir no país, a Bunge aposta na retomada das importações do trigo da Argentina, que produz e exporta diferentes qualidades do cereal, atendendo às demandas específicas de cada segmento.

Após perder a liderança no fornecimento de trigo ao Brasil por causa de um período de travas à exportação seguido de quebra de safra, a Argentina caminha para retomar sua tradicional posição. Prepara-se para colher uma safra maior que a anterior a partir do próximo mês. Se essa perspectiva se concretizar, "vai ser com uma logística mais eficiente, curta, e com qualidade mais atrativa para o mercado do Brasil", disse Padilla.

Atualmente, as importações de trigo representam cerca de 60% do que a indústria brasileira demanda, uma vez que a produção brasileira, embora já consiga atender às diversas demandas por qualidade, ainda é limitada.

Por Camila Souza Ramos | De São Paulo

Fonte : Valor

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