BRF prestes a fincar raízes na Arábia Saudita

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Para a BRF, a entrada na produção de frango na Arábia Saudita deve ocorrer no curto prazo, afirmou Patricio Rohner

Com o intuito de atender aos interesses estratégicos da Arábia Saudita de reduzir sua dependência de importações de carne de frango, a BRF corre contra o tempo – e a falta de recursos – para se instalar no país como produtora e deixar de ser apenas uma grande fornecedora da proteína produzida no Brasil.

Embora hegemônica no Oriente Médio devido à herança da Sadia, que desbravou o mercado de frango da região nos anos 1970, a BRF poucas vezes teve sua posição tão ameaçada na Arábia Saudita, principal país árabe da região do Golfo Pérsico. Hoje, a BRF fatura mais de R$ 8 bilhões por ano no mercado halal (que segue os preceitos muçulmanos).

À frente das operações internacionais da BRF a partir de Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, o argentino Patricio Rohner recebeu de Pedro Parente, CEO global, a incumbência de ingressar na Arábia Saudita de maneira criativa – na prática, sem desembolso de caixa ("non cash deal", como Parente indicou em recente teleconferência).

Em entrevista exclusiva ao Valor, Rohner revelou que a busca por parceiros na Arábia Saudita avançou. Rohner já elegeu, inclusive, os "finalistas" com os quais a BRF tem interesse em se associar. Ainda que nenhum acordo tenha sido assinado, a expectativa dele é que a entrada da companhia brasileira na produção de frango saudita ocorra no curto prazo -"tem uma urgência de seis meses a um ano", sustentou, acrescentando que o governo saudita está a par dos planos da BRF.

Pelo gigantismo da companhia brasileira, que fatura mais de R$ 30 bilhões e detém a maior estrutura de exportações de frango do mundo, era importante deixar claro que sua entrada no país estaria alinhada os objetivos do governo da Arábia Saudita, que deseja que a produção local abasteça 60% da demanda de forma consistente – e, talvez, menos protegida por incentivos do governo – até 2030.

Nesse cenário, a BRF não poderia se instalar na Arábia Saudita pairando como uma ameaça às indústrias locais. É importante lembrar que o lobby dos produtores sauditas chegou a ser visto por fontes brasileiras que acompanham o setor como o responsável pelas restrições à carne de frango do Brasil, o que incluiu quadruplicar o imposto de importação, uma mudança no sistema de abate e, mais recentemente, o veto a dezenas de abatedouros brasileiros. Ao Valor, Rohner não fez comentários a respeito dessas restrições, embora tenha enfatizado a importância das conversas com o governo.

Na busca por parceiros na Arábia Saudita, a BRF tem alguns trunfos. De acordo com o executivo, a empresa já havia feito um amplo mapeamento da agroindústria saudita de frango há poucos anos, quando estava em busca de aquisições na região – a companhia acabou comprando uma companhia na Turquia, em 2017 – e, ao mesmo tempo, preparava oferta inicial de ações (IPO) da então subsidiária OneFoods, negócio que reunia as operações voltadas aos mercados muçulmanos – inclusive abatedouros no Brasil.

Durante a gestão de Parente, a abertura de capital foi descartada e a OneFoods acabou dissolvida como negócio independente. No entanto, o mapeamento feito será útil, indicou Rohner. Mas, diferentemente do que a BRF fez na Turquia há dois anos, com a aquisição da agroindústria de frango Banvit, a ideia na Arábia Saudita "não é comprar um player", sinalizou o executivo.

Sem dar muitos detalhes, Rohner argumentou que a BRF poderá, em uma eventual parceria no mercado saudita, oferecer competências que poucos concorrentes possuem. Entre elas, ele citou a eficiência na gestão agropecuária – na Turquia, a troca de experiências com o negócio no Brasil ajudou a Banvit a ampliar a rentabilidade – e a proximidade com os clientes.

De acordo com Rohner, os produtores de frango muitas vezes têm dificuldades para conhecer a demanda dos consumidores. Na BRF, a ampla estrutura de distribuição no Oriente Médio e a fábrica de alimentos processados em Abu Dhabi, em operação desde 2014, estreitaram os laços da empresa com os clientes na região. A marca Sadia, líder naquele mercado, também faz parte das competências – no Golfo, a BRF possui uma participação de mais de 20% no mercado de alimentos processados.

Na Arábia Saudita, o interesse da BRF não deve se restringir à produção e comercialização de frango inteiro, afirmou Rohner. O negócio de processados (frango marinado, cortes de frango e até mesmo hambúrguer) está na radar da companhia brasileira.

Nesse caso, a entrada da BRF no setor seria gradual, acompanhando o movimento de mudanças na sociedade saudita. Segundo Rohner, a ascensão da mulher no mercado de trabalho tende a reduzir a alimentação dentro de casa nos próximos anos. O executivo não comentou, mas a entrada gradual no segmento de processados pode ajudar o negócio a ser mais palatável financeiramente para a BRF, que ainda lida com o elevado endividamento.

Por Luiz Henrique Mendes | De São Paulo

Fonte : Valor

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