BRF diz que IPO da OneFoods é uma das opções para financiar a Banvit

Nicolas Pousthomis/Valor
Borges, da BRF: "Quero ter o fundo soberano da Arábia Saudita como sócio"

A BRF pode financiar a aquisição da turca Banvit por meio de uma oferta pública inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) ou uma capitalização privada da subsidiária OneFoods – empresa dedicada aos mercados muçulmanos -, disse ontem, em entrevista ao Valor, o vice-presidente de finanças e relações com investidores da BRF, Alexandre Borges.

Na segunda-feira, a BRF anunciou a compra da Banvit por US$ 470 milhões. A transação será feita em sociedade com o fundo soberano do Qatar, que terá 40% da processadora de carne de frango turca. A expectativa da empresa brasileira é obter as autorizações necessárias e concluir a aquisição da Banvit dentro de 90 dias, entre o fim de março e o início de abril.

"Estamos avaliando uma eventual capitalização da OneFoods, um potencial IPO", disse ele, ressaltando que a BRF também tem recursos em caixa para financiar a compra da Banvit, se assim desejar. "Caixa não é um problema para nós", disse.

No entanto, o executivo admitiu que financiar aquisição a partir da própria OneFoods tende a ser mais interessante para a empresa. Com sede em Dubai, a subsidiária "pode ter acesso a taxas mais atraentes do que captar no Brasil", explicou.

O executivo também destacou a sociedade com o fundo soberano do Qatar, que concordou em migrar a participação na Banvit para uma fatia na OneFoods caso a BRF faça mesmo o IPO da subsidiária. Segundo Borges, o fundo reforçou a "posição institucional" da companhia, funcionando como um selo para a BRF do Oriente Médio.

Borges sinalizou ainda que a associação com outros fundo soberanos da região está no radar da BRF. Segundo ele, a intenção da OneFoods é estar mais "conectada com a agenda governamental" do Oriente Médio. Nesse contexto, ele indicou ter interesse em fazer parcerias com o fundo soberano da Arábia Saudita. "Quero ter o fundo soberano da Arábia Saudita também como sócio", afirmou.

Ainda em relação à Arábia Saudita, o vice-presidente da BRF divergiu da avaliação do mercado sobre o aumento da tarifa de importação de carne de frango decidida pelo país. Na sexta-feira passada, a alta do imposto saudita – a alíquota quadrupliou para 20% – foi mal recebida pelos investidores, e as ações da empresa amargaram queda de 4,7%.

Em relatório a clientes, o banco J. P. Morgan rebaixou a recomendação para as ações da BRF de overweight – desempenho acima da média do mercado, equivalente a recomendação de compra – para neutra. Entre os motivos apontados pelo banco estava o aumento do imposto na Arábia Saudita. Na avaliação do banco, a medida pode afetar o potencial de criação de valor da OneFoods.

Para Borges, no entanto, o aumento de tarifa de importação de carne de frango determinado pela Arábia Saudita é positivo para os planos da subsidiária OneFoods. "A notícia no fundo é boa. Não tem um [impacto] material, mas é marginalmente boa", disse.

Em contraposição à reação do mercado, o vice-presidente da BRF argumentou que a fábrica da OneFoods em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, não foi afetada pelo aumento do imposto saudita. Com isso, a unidade pode, inclusive, elevar a rentabilidade. "A planta vai vender a preços mais altos ou ganhar market share", argumentou Borges. Outra possibilidade é fazer "triangulação", importando o produto do Brasil e processando-o em Abu Dhabi, exemplificou.

Para o executivo, o aumento de impostos dos sauditas também reforça os planos da OneFoods de ter produção local em diversos países do Oriente Médio. "Temos analisado oportunidades de investimento na Arábia Saudita", afirmou.

Na Turquia, onde ingressará assim que a aquisição da Banvit estiver concluída, a expectativa da OneFoods é ampliar o nível de rentabilidade, disse ontem o CEO da BRF, Pedro Faria, em teleconferência com analistas para comentar a operação. Segundo ele, a empresa turca tem todas as condições de trabalhar com margem Ebitda próxima de 20%.

No mercado, porém, há quem seja mais conservador, tendo em vista a margem Ebitda atípica de 13% registrada pela Banvit em 2015. Nos últimos cinco anos, a margem Ebitda média da empresa foi de 5,7%, segundo o BTG Pactual. A BRF sustenta que a redução da oferta de frango – fruto da falência de três empresas de frango da Turquia – e mudanças estruturais da avicultura do país permitirão margens mais elevadas.

Fonte: Valor | Por Luiz Henrique Mendes | De São Paulo

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