BRF ainda necessita de R$ 2,5 bi para cumprir meta de venda de ativos

Claudio Belli/Valor

Extensão do prazo para oferta por ativos da BRF na Tailândia pode render proposta mais vantajosa, disse Lorival Luz

Um ano para esquecer. Na BRF, a frase nunca fez tanto sentido. A tempestade que atingiu a empresa em 2018 teve de tudo um pouco. De conflitos societários à investigação da Polícia Federal, passando por embargos comerciais, prejuízo bilionário e ações em queda livre. A empresa perdeu mais de R$ 10 bilhões em valor de mercado no ano.

Desde meados de maio, no entanto, a BRF vem tentando mudar os rumos. Para reverter o quadro, Pedro Parente assumiu o comando da companhia, prometendo reduzir rapidamente o endividamento a partir da venda de ativos na Argentina, Tailândia e Europa.

O prazo da promessa está perto do fim – na verdade, ele não será cumprido. Ontem, a empresa admitiu que não conseguirá fechar a venda dos ativos na Tailândia e Europa este ano, como previa inicialmente. "Não diria que houve adiamento. Houve adequação do cronograma", disse a jornalistas o vice-presidente executivo da empresa, Lorival Luz.

Com isso, o índice de alavancagem (relação entre dívida líquida e Ebitda) não chegará às almejadas 4,35 vezes no fim deste ano. Em setembro, o índice estava em 6,7 vezes, nível considerado preocupante. Para Luz, no entanto, a meta segue válida. Desde o início, a BRF argumentava que os recursos das vendas só entrariam no caixa da companhia no primeiro trimestre de 2019. A intenção da companhia é que, na divulgação do balanço de 2018 – previsto para 28 de fevereiro -, as vendas tenham sido realizadas para que o índice de alavancagem "pro forma" atinja 4,35 vezes.

Para isso, BRF precisará obter, até a divulgação do balanço, cerca de R$ 2,5 bilhões com a venda da tailandesa Golden Foods Siam, especializada em carne de frango cozida, e da estrutura de distribuição de alimentos na Europa. Só assim o objetivo traçado por Parente de levantar R$ 3 bilhões com a venda de ativos operacionais será atingido.

Nas últimas duas semanas, a BRF acertou a venda de alguns ativos na Argentina, além de uma fábrica de hambúrguer no Brasil, mas o montante angariado ainda é pouco para a meta da empresa, além de significar uma perda contábil significativa sobre o valor investido pela BRF para montar essas operações.

Até agora, a empresa assegurou R$ 530 milhões com a venda de ativos operacionais. A última transação nessa frente foi anunciada ontem, com a alienação da argentina Avex, de carne de frango, por US$ 50 milhões (quase R$ 200 milhões), para a Granja Três Arroyos e Fribel.

Dada a promessa de reduzir o índice de alavancagem em mais de um terço no curto prazo, a venda da Avex era necessária. No entanto, o saldo contábil (sem efeito sobre o caixa) para a BRF será negativo. Para adquirir a Avex, há cinco anos, a companhia investiu cerca de US$ 150 milhões.

Apesar dos desafios, o clima na BRF é de tranquilidade, afirmaram duas fontes. "A meta vai ser atingida", disse uma delas. Há também quem esteja otimista e aposte que a BRF vai surpreender, obtendo mais do que os R$ 3 bilhões previstos, sobretudo devido à atratividade dos ativos da empresa brasileira na Tailândia, um país emergente no comércio global de carne de frango.

Embora o discurso oficial da BRF seja cauteloso, os mais otimistas apostam que o pacote que inclui a Golden Foods Siam e os ativos na Europa rendam R$ 3 bilhões. Somados aos R$ 530 milhões já obtidos e ao que poderá ser levantado com a venda da empresa de carne suína Campo Austral – último ativo argentino à venda -, a BRF poderia angariar R$ 3,7 bilhões com a venda de ativos operacionais, projetou fonte próxima à empresa.

Ontem, Luz fez questão de ressaltar que o interesse pelos negócios na Tailândia e Europa é grande. Atualmente, cinco companhias disputam esses negócios – entre elas, está a americana Pilgrim’s Pride, controlada pela JBS, como o Valor informou.

"Pela intensidade de acessos ao data room [dados da companhia à venda], a transação segue competitiva", afirmou. Segundo ele, a extensão do prazo para a oferta vinculante, de 15 de dezembro para o fim desta semana, pode significar uma oferta mais vantajosa. "Dou uma condição melhor para os players que estão trabalhando de forma muito ativa para que possam dar uma proposta mais adequada".

Paralelamente à venda dos ativos, a BRF atua para melhorar a gestão de capital. Ontem, anunciou a antecipação de R$ 875 milhões em recebíveis. Junto com as vendas, a iniciativa ajudará a atingir R$ 5 bilhões do plano de monetização da companhia.

Além disso, a BRF tomou um novo empréstimo de R$ 500 milhões no BTG Pactual e renovou linhas de R$ 550 milhões com o Itaú. Assim, assegurou recursos para pagar as dívidas do primeiro semestre de 2019 sem mexer no caixa de R$ 6,5 bilhões.

Por Luiz Henrique Mendes | De São Paulo

Fonte : Valor

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