Brasileiro começa a trabalhar para si hoje

Fonte: JCB

Estudo aponta que, até ontem, todo o trabalho de 2011 foi para pagar impostos; Brasil é o segundo País que mais cobra tributos

Vitor Oshiro

Hoje é dia de comemoração para os trabalhadores do Brasil. Entretanto, ao analisar a data, não são encontrados motivos de festejos. Nesta segunda-feira, é o primeiro dia que o brasileiro, inclusive o bauruense, começa a trabalhar em prol do seu próprio bolso. É impressionante: desde o começo do ano até ontem, todo o trabalho realizado foi para pagar impostos. É o que aponta pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT), colocando o Brasil como o segundo maior cobrador de impostos do mundo.
Segundo o estudo denominado “Os dias trabalhados para pagar tributos”, do rendimento bruto anual, a quantidade destinada aos impostos em 2011 é de 40,82%, o que significa que, neste ano, foram trabalhados 149 dias para quitar todos os tributos, o que equivale a 4 meses e 29 dias.
De acordo com o presidente do IBPT, tributarista e professor em contabilidade e planejamento tributário João Eloi Olenike, a maior quantidade de impostos ainda está inserida sobre os produtos de consumo.
“No estudo constatou-se que, em 2011, o valor de impostos sobre os produtos e serviços foi de 22,8%. Entre esses tributos, estão inseridos PIS (Programa de Integração Social), ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) e IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados). São impostos que os fabricantes repassam ao consumidor”, explica.
Depois vêm os tributos sobre a renda do trabalhador, que equivalem a 14,72% do total. Esse tributo é basicamente o Imposto de Renda de Pessoa Física e as contribuições previdenciárias e sindicais.
“Com 3,3% aparecem os tributos sobre patrimônios. São os impostos sobre imóveis e veículos, como o IPTU (Imposto sobre a Propriedade Territorial Urbana), IPVA (Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores), ITCMD (Imposto sobre a Transmissão Causa Mortis ou Doação), ITBI (Imposto sobre a Transmissão de Bens Imóveis) e ITR (Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural)”, informa João Olenike.
E a tendência é que os impostos continuem aumentando. Segundo o presidente do IBPT, desde 2003, quando o instituto realizou o primeiro levantamento, a arrecadação somente vem evoluindo. Na época, o contribuinte destinava 36,98% do seu rendimento bruto para os impostos.
“No ano que vem, provavelmente chegaremos aos cinco meses exatos trabalhando para pagar impostos. Em 2006 foi instituído o Dia de Libertação dos Impostos, comemorado em 25 de maio. Entretanto, enquanto o dia da comemoração é mantido, a data em que os brasileiros se libertam dos tributos é sempre jogada mais para frente, pois o que é cobrado só aumenta.”
Vice-campeão
Com os 149 dias trabalhados em 2011 para pagar as cargas tributárias, a pesquisa do IBPT aponta que o Brasil é o segundo País que mais cobra impostos do mundo. Empatado com a França, o Brasil só perde para a Suécia, que demanda 185 dias trabalhados para quitar tributos.
Entretanto, a realidade dos países europeus em questão é bastante diferente da brasileira, o que revolta, assim como muitos brasileiros, o próprio presidente do IBPT, João Eloi Olenike. “Enquanto é costumeira a notícia de quebras sucessivas de recordes de arrecadação de impostos, taxas e contribuições, o cidadão convive com problemas na saúde pública, educação deficiente, falta de segurança pública e caos na infraestrutura. Atualmente, pagamos mais de 40% de impostos, o que está bem longe da realidade dos serviços que são ofertados ao contribuinte”, conclui.

____________________

Impostos nos produtos
O IBPT também avaliou os impostos que estão sendo cobrados sobre cada produto comercializado. Analisando a tabela, é possível verificar que, em uma refeição simples, não é somente os condimentos que podem “salgar” a comida. Do prato típico brasileiro, o arroz e o feijão têm, em cada pacote, 17% de impostos. Porcentagem semelhante do que é tributado sobre a carne bovina.
Já no café da tarde, os impostos também aparecem. Quando um pão com manteiga é degustado, há 19% de tributos embutidos no pão francês e outros 35% na manteiga. Se for acompanhado de um refrigerante, acrescenta-se 44% de impostos, cobrados sobre a garrafa do produto.
Ainda segundo o IBPT, alguns hábitos fazem mal não somente à saúde, mas também ao bolso. É o caso do cigarro e da cachaça, uma vez que ambos os produtos carregam mais de 80% de impostos.
Em geral, as roupas têm 34% de tributos e a gasolina, produto alvo de polêmicas pelos altos preços atuais, aparece com taxas tributárias acima de 50%.

____________________

158 dias para a classe média
A pesquisa do IBPT também analisou o número de dias trabalhados de acordo com as classes sociais. O instituto classificou a classe baixa com rendimento mensal de até R$ 3 mil; a média, de R$ 3 mil a R$ 10 mil; e a alta, acima de R$ 10 mil
Segundo a pesquisa, a classe média é a que mais trabalha para pagar impostos: 158 dias destinados aos tributos. Depois, aparece a classe alta, com 152 dias. Por fim está a classe baixa, que necessita trabalhar 142 dias por ano para quitar as taxas tributárias.
Seguindo essa projeção, a única que já teria se livrado dos impostos seria a classe baixa, que já estaria trabalhando para o próprio bolso desde o último dia 22. Para a classe alta, essa data seria somente no próximo dia 1, e a classe média quitará os impostos apenas no dia 7 de junho.

____________________

Para economista, maior problema é a corrupção
Segundo o economista Wagner Ismanhoto, com essa carga tributária pesada, o Brasil poderia oferecer serviços de primeiro mundo. Entretanto, não é preciso informar que não é a realidade vivenciada no País.
“Morei na Inglaterra, onde a tributação é muito alta e mesmo assim é abaixo da brasileira. Porém, lá os serviços de segurança, escola e saúde são excelentes. O único país que cobra mais impostos que o Brasil é a Suécia. Nem preciso dizer que estamos bem longe de uma Suécia. Com o que pagamos, podíamos ter todos esses serviços com uma qualidade enorme”, afirma.
Questionado sobre o porquê da disparidade entre o que é colhido e o que é oferecido, o economista aponta como questão principal a corrupção. â€œÉ realmente o maior problema do País. Há muita corrupção e o dinheiro não volta para os consumidores”.
Wagner Ismanhoto ainda completa que outro problema é o “inchaço” da máquina pública, que emprega cada vez mais funcionários e, assim, obriga o sistema a aumentar a arrecadação para pagá-los. “E a maioria desses pesados tributos vai para a esfera federal. Pouco fica no município. É por isso que vemos cada vez prefeituras ‘quebradas’”, finaliza o economista.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *