Brasil terá de ampliar importação do cereal este ano

Marisa Cauduro/Valor

Marcelo Vosnika, presidente do conselho da Abitrigo: qualidade foi afetada

Os moinhos brasileiros avaliam que os estragos provocados pelas adversidades climáticas nas lavouras de trigo da região Sul do país levarão o setor a ter de importar mais de 7 milhões de toneladas este ano, segundo Marcelo Vosnika, presidente do conselho deliberativo da Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo).

O número é maior que as 5 milhões de toneladas estimadas pela cadeia produtiva argentina e pode ser o maior volume importado desde 2013. Na época, problemas climáticos afetaram a produção da América do Sul, e o governo brasileiro suspendeu temporariamente a tarifa de 10% sobre as importações de trigo de fora do Mercosul.

Apesar dos esforços de diversificação das exportações por parte dos argentinos, o fornecimento de trigo pelos vizinhos deverá estar garantido. "A Argentina, com a safra desse tamanho, necessariamente tem que exportar também para fora do Mercosul. Mas isso não gera muita preocupação", diz.

No ano passado, o Brasil importou 6 milhões de toneladas de trigo, dos quais 5 milhões vieram da Argentina. Em geral, os moinhos brasileiros mesclam a produção nacional com cerca de 20% de trigo argentino. Contudo, como o trigo brasileiro está com menor qualidade desta vez, o cereal argentino poderá chegar a 50% nas misturas.

"O número mínimo do ‘falling number’ [índice de queda] que consideramos para o trigo para panificação é 250. E metade da safra brasileira ficou abaixo desse mínimo", diz Vosnika. Pela última estimativa da Conab, o país colheu 5,28 milhões de toneladas de trigo na última safra (2016/17), o que significa que apenas cerca de 2,6 milhões de toneladas do cereal são apropriados para a panificação.

Por enquanto, como a safra nacional acabou de ser colhida, os moinhos ainda estão abastecidos, mas a Abitrigo calcula que as importações começarão a crescer a partir de março, quando carregamentos argentinos deverão chegar pelos portos do Sul e Sudeste.

Já os moinhos do Nordeste devem importar, como sempre, dos Estados Unidos, um volume estimado de 500 mil toneladas. E, embora o Ministério da Agricultura tenha flexibilizado regras para permitir a importação do trigo da Rússia, ainda não há importações do país programadas para chegar ao Brasil, segundo Vosnika.

O aumento das importações deve tornar os custos dos moinhos mais suscetíveis às oscilações cambiais, principalmente em um ano "com mais volatilidade", diz. Mas os preços internacionais do cereal não preocupam, já que o mundo está com estoques elevados, acrescenta.

Por Camila Souza Ramos | De São Paulo

Fonte : Valor

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