Brasil sugere que Índia produza mais etanol

Beto Barata/PR

O primeiro-ministro Narendra Modi e o chanceler José Serra: etanol e lentilhas

O Brasil apresentou um plano à Índia para que os excedentes de produção de açúcar do país não sejam jogados no mercado internacional e deprimam os preços da commodity: produzir mais etanol. O governo indiano tem sido sistematicamente acusado em comitês na Organização Mundial de Comércio (OMC) de criar mecanismos para subsidiar a exportação de açúcar e, assim, prejudicar outros produtores.

Ontem, durante a visita oficial do presidente Michel Temer à Índia, a delegação brasileira manifestou preocupação com essa situação e propôs cooperação para os indianos acelerarem a produção do etanol. Isso por pelo menos três razões. A primeira é justamente uma defesa quando os preços do açúcar começarem a cair no mercado internacional. "Quem faz etanol a partir do açúcar, como o Brasil, tem a possibilidade de interromper essa queda do preço, indo para o etanol", afirmou o ministro da Agricultura, Blairo Maggi.

O Brasil sugere que a Índia siga essa estratégia, para segurar o preço do açúcar e não depender de uma commodity com variação tão forte na cotação como tem ocorrido nos últimos anos. Além disso, tem a questão ambiental, para reduzir poluição. A Índia fixou meta de mistura de etanol à gasolina em 10%, que deveria ter sido alcançada em 2009. No governo de Narendra Modi, em todo caso, a mistura já passou de 1,7% para 3,3% e o plano agora é de atingir a meta de 10% em 2020 sem importação de etanol.

Por último, como sublinhou o ministro das Relações Exteriores, José Serra, quanto mais países produzirem etanol, tanto melhor, porque o movimento pode tornar o biocombustível uma commodity global, como pretende o Brasil.

Os indianos se mostraram interessados. O embaixador brasileiro em Nova Déli, Tovar Nunes, crê num potencial importante de negócios no segmento, visto a tecnologia brasileira de etanol.

Produtores brasileiros veem um novo caminho para a Índia também com a produção de lentilhas. A Índia é o maior consumidor mundial. No ano passado, o governo passou maus momentos quando o quilo do produto pulou de 80 para 200 rúpias em oito meses. Maggi diz que a Índia busca fornecedores seguros, o que se refletiu na assinatura de um acordo de transferência de material genético para experimentações no Brasil.

Segundo Maggi, a Índia diz que até 2030 precisará importar 30 milhões de toneladas anuais de lentilhas. Para se ter uma ideia, basta comparar com a safra brasileira de soja, a segunda maior do mundo, que fica em torno de 90 milhões de toneladas. Com o aperto na oferta, os indianos "saíram correndo para assinar um acordo com Moçambique, porque o preço subiu e eles não tem onde se abastecer", diz Maggi. "Moçambique não tem as condições. O Brasil é o mais capaz".

De acordo com o ministro, a demanda indiana em 2030 representará um negócio de US$ 6 bilhões por ano, pelo menos. A Embrapa vai distribuir o material genético em todo o território nacional.

Por Assis Moreira | De Goa (Índia)

Fonte : Valor

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