Brasil ganha força na estratégia da UPL

Ana Paula Paiva / Valor

Carlos Pellicer, presidente da UPL no Brasil: planos ambiciosos para o país

A decisão da indiana United Phosphorus Limited (UPL) de investir R$ 1 bilhão em uma nova fábrica de agroquímicos no Brasil, anunciada na semana passada, é um movimento estratégico que deve reforçar a posição do país como uma importante plataforma para a companhia atender o restante da América Latina, parte da África e dos EUA. Por ser o maior investimento da empresa desde que fincou raízes por aqui, há cinco anos, o aporte contribuirá também para acelerar a meta de atingir o primeiro bilhão (nesse caso, de dólares) de receita no país, diz Carlos Pellicer, presidente da UPL no Brasil.

"Planejávamos chegar a US$ 1 bilhão de faturamento no Brasil até 2020, mas acho que chegaremos antes até", disse o executivo ao Valor. A empresa, que se dedica aos defensivos pós-patente (genéricos) encerrou o último exercício, em março de 2016, com uma receita de US$ 381 milhões, ou cerca de R$ 1,6 bilhão. Para o atual ano fiscal, a expectativa é de um crescimento de 40% em real. O Brasil já é o terceiro mercado para a UPL, atrás de Índia e EUA. Globalmente, a empresa fatura em torno de US$ 2 bilhões.

A fábrica planejada pela companhia será dedicada à síntese de produto técnico, que é a matéria-prima para os defensivos. A unidade contará com uma área menor para formulações, mas essa tarefa seguirá concentrada em Ituverava (SP), onde a UPL já mantém uma planta. "O Brasil não tem muitos produtos sintetizados aqui, e entendemos que se construíssemos um parque fabril com esse foco, isso nos daria uma posição diferenciada", afirmou Pellicer.

Conforme o executivo, do total de agroquímicos produzidos no país, menos de 10% é sintetizado domesticamente, daí a grande dependência de importações. Mas das 28 unidades que a UPL tem espalhadas pelo mundo, 18 fazem síntese de produtos.

Com a nova unidade, a UPL quer garantir 65% da matéria-prima que necessita para sua produção local e trazer do exterior apenas os 35% restantes. Hoje, a relação é inversa. A fábrica abastecerá outras unidades da empresa indiana no mundo, mas também deve fornecer uma pequena parcela para terceiros. A expectativa é que a planta tenha uma capacidade de produção de 150 mil toneladas por ano e que gere cerca de 700 empregos diretos. O local da nova unidade ainda não foi definido.

Há um ano, Pellicer disse ao Valor que a UPL estudava erguer uma nova indústria, mas à época estimou um aporte mais modesto, de R$ 150 milhões a R$ 200 milhões. "Acontece que decidimos ampliar o portfólio, produzindo mais produtos, em maior quantidade e para mais culturas", explicou. A empresa não detalha quais produtos técnicos fabricará, mas adianta que serão voltados a soja, milho, cana, algodão e café. "O câmbio atual também tornou o Brasil mais competitivo para esse investimento", admitiu o executivo.

Maior empresa de defensivos da Índia, a UPL iniciou operações no Brasil em 2003, com a comercialização de produtos importados. Em 2011, adquiriu o controle da subsidiária brasileira do grupo alemão DVA, do qual herdou a estrutura fabril em Ituverava. A empresa não cria novas moléculas, mas busca novos usos e misturas.

Além de defensivos, o grupo mantém negócios nas áreas de sementes e fertilizantes. Na última década, a companhia investiu em torno de R$ 600 milhões no Brasil, entre pesquisa e desenvolvimento, pedido de registros, estação experimental, laboratório de formulações e ampliação da fábrica em Ituverava.

O projeto da nova fábrica aproximou a companhia do governo brasileiro – o anúncio do investimento foi feito pelo próprio ministro da Agricultura, Blairo Maggi, em viagem à Índia na semana passada. "Para começar a produzir, precisamos do registro dos produtos e queríamos alinhar com o ministério o apoio nesse trabalho de adequação dos registros", explicou Pellicer. Além do Ministério da Agricultura, também o Ibama e a Anvisa serão responsáveis por autorizar a fabricação desses produtos técnicos pela UPL no Brasil. Otimista, a empresa espera que o primeiro litro de agroquímico saia da nova unidade em 2018.

Com uma estrutura mais robusta, a UPL também se fortalece em um setor marcado por um crescente movimento de concentração. De um ano para cá, foram fechadas a fusão de Dow e DuPont, a compra da Syngenta pela ChemChina e da Monsanto pela Bayer. "Tudo isso nos dá mais motivação, porque o mercado fica mais profissional", disse Pellicer. Para ele, essa ‘dança das cadeiras’ no mercado tende a obrigar as empresas a venderem parte de seus negócios, o que abriria oportunidades de aquisições para a companhia indiana.

Por Mariana Caetano | De São Paulo

Fonte : Valor

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