Brasil está quase subindo para a “Série A” do agro mundial

Fonte: Globo Rural

Consultor diz que o país é o primeiro da “Série B” e tem condições de ser líder do grupo especial

por Viviane Taguchi

Editora Globo

André Pessôa, da Agroconsult, acredita que o Brasil está prestes a galgar um lugar de destaque na economia global

Os olhares de fome do mundo estão voltados para o Brasil. Em todos os setores da economia, discute-se a possibilidade de o país tornar-se o grande fornecedor de alimentos para o resto do mundo e o clima de otimismo é imenso. Tudo, ou quase tudo, conspira a favor. O agro brasileiro saiu da posição de “o mostro destruidor de florestas” para ocupar a posição de esperança global. E verde. A cadeia produtiva mostrou que é possível incrementar os volumes de commodities agrícolas de formasustentável. E não há nenhuma outra agricultura no mundo que faça – ou tenha condições de fazer como o Brasil. O conjunto terras agricultáveis, topografia favorável, luminosidade intensa, clima bom e tecnologia de ponta são como um patrimônio do agro brasileiro e é o que pode empurrar o país para uma nova posição econômica, a “série A” do agro mundial. “E temos um ativo que nenhum outro país do mundo tem: uma massa crítica de produtores rurais com idade inferior a 40 anos, apaixonados pelo agronegócio. Não o agro do passado, mas o agro tecnológico e financeiro”, diz André Pessoa, sócio-diretor da Agroconsult. Confira a entrevista, concedida com exclusividade à Globo Rural:
Globo Rural: Em sua opinião, o Brasil está suficientemente desenvolvido como uma potência agro?
André Pessôa: O Brasil poderia estar muito além. Somos um grande exportador de commodities agrícolas e isso é um grande negócio, mas ainda estamos na Série B deste campeonato. Nós precisamos subir para o grupo especial e temos condições ótimas para que isso aconteça muito em breve. Aqui, temos terras disponíveis, clima, luminosidade e topografia favoráveis. Sem contar que o produtor rural brasileiro é apaixonado por tecnologia e inovações. Isso é fundamental para uma agricultura de sucesso. O Brasil tem condições de cumprir a meta de crescer 40% nos próximos 10 anos. Aliás, eu acredito que podemos crescer mais que isso.
GR: E o que falta para subirmos para este Grupo Especial?
Pessôa: Políticas reguladoras e investimentos mais pesados em infraestrutura. Nós somos um país que produz 160 milhões de toneladas de grãos. Precisamos pensar em produzir 500, 600 milhões de toneladas de grãos para chegarmos neste grupo.
GR: Quem já faz parte do Grupo Especial?
Pessôa: Em primeiro lugar vem a China, com uma produção de quase 600 milhões de toneladas de grãos, seguida pelos Estados Unidos, com 500 milhões de toneladas. Eles [Estados Unidos] são os maiores exportadores em volume, mas não em saldo porque precisam importar muito também. Em terceiro lugar, vem a Europa com uma produção de 300 milhões de toneladas de grãos e eu diria que depois, vem a Índia com quase 300 milhões de toneladas. Este é o grupo especial.
GR: Para a produção brasileira, de 160 milhões de toneladas na última safra, chegar a 300 milhões de toneladas no mínimo ainda levará muito tempo?
Pessôa: O brasileiro tem que trabalhar muito e o governo tem que ajustar os mercados, regular alguns setores. O Brasil ocupa o primeiro lugar da Série B, digamos assim. Mas não é por isso que devemos pensar em produzir 300 milhões de toneladas, temos que pensar em produzir 500 milhões de toneladas.
GR: No entanto, isso depende diretamente de mais investimentos no setor. Quem pagará a conta?
Pessôa: Precisamos investir em infraestrutura logística. A infraestrutura brasileira, apesar de ser precária, ela existe. Temos muita gente que diz que tudo é uma porcaria, mas se você olhar para exemplos como a Índia, que está no grupo especial, a infraestrutura é pior. Os investimentos nesta área, tanto públicos como privados, estão acontecendo, devagar, mas estão. E sinceramente, eu acredito que vá melhorar muito.
GR: O brasileiro está pronto para ‘subir de divisão’?
Pessôa: Eu diria que o brasileiro é o povo que está mais pronto. Aqui, temos uma massa crítica de produtores rurais com idade inferior a 40 anos, que está habituado a usar tecnologia em seu dia a dia. Os brasileiros gostam de inovação, são empreendedores natos e apaixonados pelo agro. Hoje em dia, o perfil do produtor rural brasileiro mudou, modernizou e isso não acontece mais em nenhum lugar do mundo.
GR: Então, quem é o novo produtor rural brasileiro?
Pessôa: São filhos e netos dos produtores rurais de antes, uma geração que conseguiu estudar e se modernizar. O produtor rural de hoje é um empresário rural, que vai ao mercado de valores, que ousa e sabe medir os riscos. Hoje, esta nova geração, de 40 anos, já é tomadora de decisões em uma empresa agrícola e a geração dos 20 anos já está se integrando aos negócios. São empresários agrícolas no mercado financeiro.
GR: Isso pode influenciar a escalada do Brasil para o que você chama de “Série A” do agro?
Pessôa: Sim. Este ativo, que é gente nova e informada, vai faltar no resto do mundo. Por exemplo, na Ucrânia e na Rússia, que são dois países que ainda tem terras agricultáveis disponíveis, ninguém quer mais ficar no campo. Lá, assim como nos Estados Unidos, a idade média do tomador de decisões agro é de 60 anos. E esse pessoal não tem sucessores. Os filhos deles se tornaram cidadãos urbanos. No Brasil, não. As novas gerações têm orgulho em dizer que pertencem ao agro. Quando projetamos o futuro do agro brasileiro, podemos ver gente nova, bem informada, que transita entre o agrícola, os negócios, a tecnologia e o mercado financeiro. Este é o principal ativo do Brasil.
GR: O agronegócio continuará sendo familiar ou esta estrutura também tende a sofrer mudanças?
Pessôa: A experiência das gerações mais velhas conta muito. É mais ou menos assim, o pai cuida da fazenda, o filho cuida dos negócios e o neto está de olho no mercado financeiro. O produtor rural brasileiro entendeu o que é governança corporativa e a sua importância. As empresas rurais, em sua maioria, são familiares e continuarão sendo, mas elas estarão abertas às investidas cada vez mais constantes dos fundos de investimentos que estão de olho no agro brasileiro. Com uma estrutura mais profissional, o empresário rural terá mais chances de negociar com quem quer investir, a organização administrativa dessa empresa estará organizada, transparente, pronta para expandir.
GR: O interesse dos fundos de investimentos será positivo para o agro?
Pessôa: O mercado de capitais está acontecendo e os fundos de investimentos estão se interessando cada vez mais pelo agro. Isso estimula, provoca o produtor a querer ser melhor, a ir à bolsa de valores. É um movimento novo no agro, mas que vai aumentar e isso é muito bom. Ninguém brinca nesta área.
GR: Esta pressão por produzir cada vez mais não poderá interferir em outros segmentos como o meio ambiente?
Pessôa: Diferentemente do que quem está de fora imagina, o produtor rural brasileiro tem consciência, tem responsabilidade. Ele sabe que, para crescer, precisa respeitar as leis trabalhistas e ambientais. É claro que existem problemas, até porque a legislação é conflituosa em muitos pontos, mas se tem quem respeite estas leis são os produtores rurais, mesmo se levarmos em consideração que ele não tem passivos ambientais e fiscais. Sustentabilidade não é frescura, é necessidade. E o empresário agrícola sabe muito bem disso.
GR: Com o tempo, a imagem de ‘destruidor de florestas’ do agro pode mudar?
Pessôa: Acredito que estamos começando um trabalho de reversão. O Movimento Sou Agro será muito importante para mostrar esta realidade. Há muita falta de informação e sobram críticas sobre o que a sociedade quase não conhece. Precisamos enfatizar o poder de desenvolvimento do agro e temos exemplos de sobra para isso como as cidades do Centro-Oeste por exemplo. Os produtores rurais chegaram à região e transformaram a economia local. O agro tem um papel social importante.
GR: O agro está se desenvolvendo em novas áreas como o Mapito (Maranhão, Piauí e Tocantins) e Bahia, onde já existe uma pobreza muito grande. Você acredita que isto poderá mudar em longo prazo?
Pessôa: Será um grande desafio. Estas áreas convivem há muitos anos com a pobreza, mas o empresário agrícola sabe que chegar nestas novas áreas vai requerer investir também em inclusão social. É um resultado que vai demandar tempo, dedicação. Ninguém quer desestabilizar uma região, pois depois, isso vai pesar contra o sistema. A preocupação de incluir socialmente as comunidades que estão ao redor das propriedades faz parte da estrutura do agro brasileiro moderno.

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