Brasil deverá liderar aumento da fatia da América do Sul nas vendas da AGCO

Daniel Wainstein/Valor

Richenhagen: mercado sul-americano poderá representar 25% das vendas globais

Diante das perspectivas de que os preços internacionais das principais commodities agrícolas permanecerão em patamares mais baixos do que no início da década, dadas as confortáveis relações entre oferta e demanda que estão sendo reforçadas pelas robustas colheitas de grãos nos EUA nesta safra 2016/17, não são das mais otimistas as projeções para o mercado global de máquinas agrícolas no curto e médio prazos. Mas no Brasil, onde as vendas encolheram desde o fim de 2014, a tendência é de recuperação, o que amplia a importância do país no mapa das grandes fabricantes multinacionais de tratores e colheitadeiras.

Em evento realizado em Foz do Iguaçu, no Paraná, Martin Richenhagen, CEO e presidente mundial da americana AGCO, confirmou que os sinais sobre o comportamento do mercado brasileiro em 2017 são de fato positivos. Com a recuperação da economia e a retomada da confiança, o executivo, que acredita em estagnação no mercado mundial no ano que vem, prevê um aumento das vendas de máquinas no país entre 5% e 10%. "Os anos de 2014 a 2016 foram muito ruins, mas os números mostram uma reação das vendas nos últimos dois meses e nossas informações mostram que os produtores brasileiros estão bastante otimistas", disse o executivo ao Valor.

Tendo em vista esse cenário, afirmou Richenhagen, o Brasil tende a puxar um aumento da participação da América do Sul no faturamento global da AGCO – que em 2015 caiu 23,4%, para US$ 7,5 bilhões, e no primeiro trimestre de 2016 recuou 6% em relação ao mesmo período do ano passado, para US$ 1,6 bilhão. A região tem representado entre 10% e 15% das vendas mundiais da companhia, mas esse intervalo deverá aumentar para entre 22% e 25% nos próximos anos.

Atualmente, as marcas da AGCO, entre as quais Massey Fergusson e Valtra, têm, conforme a empresa, 17% do mercado sul-americano de colheitadeiras e 42% no caso dos tratores. No Brasil, os percentuais são de 12% e 44%, respectivamente. Com o empurrão da América do Sul, nas Américas como um todo a aposta da múlti é alcançar participações de 25% na área de colheitadeiras e de 50% na de tratores nos próximos anos, de acordo com Robert Crain, vice-presidente sênior e gerente geral da AGCO para a região, que também participa do evento no Paraná.

A renovação dessa visão mais otimista para o Brasil – e, consequentemente, para a América do Sul, onde a Argentina também se destaca – vem depois de um período de vacas magras que ecoa nos pátios mais vazios das fábricas das montadoras no país. As vendas brasileiras da AGCO, por exemplo, ainda diminuíram entre 26% e 28% no primeiro semestre, para uma queda geral do mercado de máquinas da ordem de 25%. "O ano deve acabar com queda de 5% nas vendas do setor, mas poderia ser mais trágico", acrescentou Werner Santos, vice-presidente de vendas e marketing da companhia na América do Sul.

Werner afirmou que o lançamento de novos produtos, mais sofisticados e com menor custo operacional para o produtor, vão colaborar para o esperado movimento de recuperação. De acordo com ele, a baixa mecanização nas lavouras no Brasil representa uma excelente oportunidade de crescimento. Mas, para que esse potencial seja de fato aproveitado, ponderou Richenhagen, são necessários estabilidade econômica e apoio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). "Não basta ter juros menores. É preciso que o dinheiro chegue às mãos dos produtores".

Nesse sentido, disse o CEO global da AGCO, o mercado brasileiro é semelhante ao do México e de países da África e do Leste Europeu, que também têm forte dependência do ritmo da atividade econômica e de financiamento. Nos EUA e na Europa, observou, 50% das vendas da empresa são realizadas por meio de leasing, mas no Brasil essa taxa não passa de 15%. "Mais de 50% de nossas vendas no país são realizadas com recursos do Finame [linha do BNDES]", afirmou Martin Richenhagen.

O Pronaf, linha de crédito voltado a pequenos agricultores, também é considerado um caminho interessante para aumentar as vendas de máquinas no país. Mas o executivo reclama que os recursos não chegam rapidamente ao produtor. "A criação do Pronaf foi um desenho nosso junto com o presidente Lula, que queria mecanizar o pequeno produtor. Temos produtos para atender essas propriedades. São máquinas de cerca de US$ 10 mil, mas que não são vendidas se não tivermos apoio de financiamentos públicos", disse o executivo.

Segundo ele, outro fator que ajuda a explicar a baixa mecanização em lavouras de grãos no Brasil ou a falta completa da tecnologia em alguns segmento agrícolas é o elevado custo operacional. "A mão de obra no Brasil ainda é muito barata. Temos produtos para atender essas lavouras que já são comercializados na Europa, mas não há mercado aqui". Richenhagen também lembrou uma peculiaridade brasileira, que são as operações de barter (troca de insumos por entrega futura de grãos), principalmente em Mato Grosso. Mas essas são operações realizadas diretamente por concessionárias, e a AGCO não sabe dimensionar exatamente quanto representam.

A jornalista viajou a convite da empresa

Por Fernanda Pressinott | De Foz do Iguaçu (PR)

Fonte : Valor

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