Brasiguaios comemoram deposição de Lugo e apoiam novo governo

Em Santa Rita, um dos maiores redutos de imigrantes gaúchos no Paraguai, produtores fizeram pressão por uma mudança de regime no país

Brasiguaios comemoram deposição de Lugo e apoiam novo governo Rodrigo Lopes/Zero Hora

Foto: Rodrigo Lopes / Zero Hora

Rodrigo Lopes

rodrigo.lopes@zerohora.com.br

Na sala de reuniões da Central Nacional de Cooperativas, em Santa Rita, próximo à Ciudad del Este, o paranaense Romualdo Zocche recebe uma folha das mãos da secretária. Ele lê o texto e solta um forte aplauso: 
— Este é um dos nossos.
A notícia do jornal paraguaio ABC Color confirma a nomeação de Manuel Ferreira Brusquetti como ministro da Fazenda do novo governo de Federico Franco. Romualdo apressa-se em mandar uma mensagem por SMS parabenizando o economista, seu velho conhecido. A resposta vem em minutos:
— Obrigado, Romualdo. Conto com teu apoio.
O aplauso de Romualdo exemplifica com perfeição o sentimento dos brasiguaios. A saída de Fernando Lugo representa o fim de um pesadelo: a prometida reforma agrária do ex-presidente trouxe tensão aos produtores rurais brasiguaios.
Desde o recrudescimento da relação, eles passaram a pressionar por uma mudança de regime no Paraguai.
O produtor rural de 58 anos é um dos cerca de 400 mil brasiguaios que vivem no Paraguai. Deixou Laranjeiras do Sul, no sudoeste do Paraná, há 34 anos. Instalou-se em Santa Rita, quando o lugarejo era “apenas mato”, teve quatro filhos e quatro netos no Paraguai. Planta soja e milho.
— Hoje, o Paraguai exporta 8 milhões de toneladas de soja, 2 milhões de toneladas de trigo e mais de 2 milhões de toneladas de milho, além de canola, girassol e outros produtos — afirma o produtor, gerente comercial da Cooperativa Pindo.
Segundo os brasiguaios, nos anos em que esteve no poder, o ex-bispo insuflava os chamados carperos (sem-terra) e pregava a xenofobia contra os brasileiros, vistos como imperialistas.
Um dos momentos de maior tensão ocorreu no início do ano, quando a propriedade de Tranquilo Favero, um dos maiores produtores rurais do Paraguai, foi invadida, a 30 quilômetros de Santa Rita.
Romualdo dá outro exemplo do que chama de descaso de Lugo com o setor agrícola: em quase quatro anos no poder, Lugo não visitou nenhuma vez a feira de agronegócios da região, enquanto reuniu-se em várias ocasiões com os sem-terra.
— O então vice Federico Franco não faltou a nenhuma edição da feira. E, em um de seus primeiros discursos como presidente da República, já demonstrou apoiar a indústria — lembra o produtor.
A tentativa de convencer o governo brasileiro
Santa Rita pode ser considerada a capital dos brasiguaios. Dos 35 mil habitantes, cerca de 75% são procedentes de Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso e outros Estados brasileiros. Carlos Pieta, natural do município de Nova Prata, na serra gaúcha, também comemora a queda de Lugo:
— Para nós, vai melhorar 100%.
Há 32 anos no Paraguai, ele é dono de uma revenda de produtos agrícolas no centro de Santa Rita. O empresário mostra nas prateleiras os produtos e dá um exemplo de como o rompimento das relações entre Paraguai e Brasil e a suspensão no Mercosul poderiam afetar seus negócios.
— Todos esses produtos vêm do Brasil — conta.
A queda de Lugo era anunciada entre os brasiguaios. Com o recrudescimento da tensão no campo, eles enviaram vários pedidos ao Partido Liberal Radical Autêntico (PLRA) para que alguma atitude fosse tomada.
Por meio da União de Grêmios da Produção, dirigentes fizeram pressão em Assunção. De um mês para cá, houve a resposta. O PLRA deixou o governo. As 17 mortes, em Curuguaty, uma semana antes do impeachment serviram como gota d’água para a abertura do processo no Senado.
Agora, os brasiguaios tentam convencer o governo brasileiro a reconhecer Franco. No domingo, uma comitiva de produtores, empresários e prefeitos da região – todos brasileiros – foi até o consulado do Brasil em Ciudad del Este para entregar uma declaração. Esperam uma resposta da presidente Dilma Rousseff.
— Na época das ameaças de Lugo, a gente pediu a Dilma que nos ajudasse. Ela disse que não podia interferir na Constituição paraguaia. Como agora ela pode dizer que o que aconteceu aqui é ilegal? — questiona Romualdo.

Fonte: Zero Hora

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