Braço agrícola da Basf quer atingir vendas de € 6 bi por ano até 2020

Fonte: Valor | Por Bettina Barros | De Ludwigshafen (Alemanha)

Divulgação/Divulgação
Leduc, vice-presidente de Proteção de Cultivos da Basf para a América Latina: amplo espaço para crescer no Brasil

A multinacional alemã Basf, maior empresa química do mundo, anunciou ontem a meta de alcançar € 6 bilhões em vendas globais de sua divisão de Proteção de Cultivos em 2020 – um salto de quase € 2 bilhões em relação ao resultado de 2010. Os mercados consolidados na América do Norte, Europa e Japão continuarão importantes, mas serão os países emergentes que darão fôlego a essa movimentação, como já se vê em muitos casos hoje.

Em uma conferência global que reuniu cerca de 50 jornalistas de diversos países em sua sede, em Ludwigshafen, altos executivos da Basf mostraram-se otimistas com o futuro da empresa, apesar da crise financeira mundial e de como os governos sairão dela. Talvez porque as economias emergentes – clientes cada vez mais importantes – sentiram menos o impacto desta vez, pelo menos até agora. Mas sobretudo porque a agricultura tende a demorar a sentir essas sacudidas. A demanda por alimentos básicos como trigo, soja e milho permanece praticamente inalterada e tende a continuar a subir nos próximos anos na medida em que a população cresce e se desloca de zonas rurais para urbanas.

Por esses motivos, a América Latina e a Ásia são a bola da vez. A primeira deverá registrar uma alta nas vendas de produtos relacionados ao campo de € 1 bilhão, no ano fiscal de 2010, para € 2 bilhões em 2020. Embora a companhia não divulgue dados individuais sobre os países, o Brasil certamente puxará o desempenho regional para cima, já que representa entre 60% e 70% do faturamento latino-americano, dependendo do ano.

Para a Basf, as lavouras brasileiras têm ainda amplo espaço para crescer em defensivos. "O Japão utiliza dez vezes mais químicos que o Brasil. A França, seis vezes mais. Os Estados Unidos também", lembra Eduardo Leduc, vice-presidente da divisão de Proteção de Cultivos da multinacional alemã para a América Latina.

Até 2013, a empresa deverá disponibilizar no mercado brasileiro mais três produtos que poderão ajudar a bater essa meta estipulada pela matriz: um fungicida para o controle da ferrugem da soja e outras pragas, outro para o combate do mofo branco no feijão e, por último, um herbicida complementar ao glifosato.

Para a Ásia, a Basf estima que as vendas da divisão agrícola cheguem à marca de € 1 bilhão em 2020. A aposta está na Índia – que tem capacidade de expansão agrícola praticamente nula, mas seus produtores ainda são pouco tecnificados. Os demais emergentes óbvios para qualquer negócio – China, África do Sul e Rússia – não retiraram do radar da Basf mercados menores e com alto potencial de crescimento. Ucrânia, Bulgária e Turquia são alguns exemplos.

Carentes em melhores variedades de sementes, em fertilizantes e defensivos, passaram a ser tratados com atenção especial. "Os produtores desses países estão se consolidando e formando grandes áreas agrícolas. Há uma busca por tecnificação em lavouras de trigo e cevada", diz Leduc.

Embora represente menos de 10% do faturamento total de € 64 bilhões, a divisão de Proteção de Cultivos abocanha o maior orçamento em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) da empresa. Anualmente, são € 1,5 bilhão destinados aos laboratórios. Desse total, € 393 milhões vão para o Proteção de Cultivos. A explicação, dizem os alemães, é o mercado e a sua demanda constante por tecnologias.

A complexidade da agricultura moderna e os desafios do setor diante de mudanças no clima fizeram a Basf e todas as suas concorrentes a investir parte significativa de seus esforços e dinheiro em biotecnologia. Mundialmente, outros € 150 milhões são alocados para esse tipo de pesquisa, que abrange não somente a agricultura, mas todas as áreas de atuação da Basf.

No campo, duas linhas de pesquisa prometem ser a salvação da lavoura, ou quase isso. A que mais cedo chegará ao mercado são os chamados transgênicos de segunda geração – tolerantes ao estresse hídrico, por exemplo.

Segundo Stefan Marcinowski, membro do board de diretores executivos da Basf, a intenção é colocá-las no mercado em dois ou três anos no mais tardar. O passo à frente será dado apenas por volta de 2018, fim desta década. É quando a Basf acredita que chegarão às gôndolas a terceira geração de transgênicos, os chamados alimentos funcionais. Proteínas, ácidos graxos e vitaminas estão na "linha de produção" da Basf. "Só assim", acredita o executivo, "a barreira à tecnologia será efetivamente derrubada".

No total, a Basf debruça-se hoje em pelo menos 23 experimentos com esses objetivos, incluindo pesquisas com arroz, milho, trigo, beterraba, canola, algodão, batatas, cana-de-açúcar e soja, que podem trazer ganhos de € 1,9 bilhão até 2020. Para tanto, a companhia alemã fechou parcerias de pesquisa com universidades e concorrentes – Bayer, Monsanto – e com as brasileiras CTC e Embrapa. Mais recentemente, iniciou uma parceira com a Cargill para desenvolver o primeiro óleo de canola com ômega 3, uma alternativa a quem não come peixe. "Temos 100% de certeza sobre a segurança desses produtos", diz Marcinowski. "No futuro, as fazendas vão se tornar fábricas de vitaminas", afirma.

Atualmente, cerca de 148 milhões de hectares no mundo são semeados com sementes geneticamente modificadas, ou 10% da área agricultável global, envolvendo 15 milhões de agricultores de 29 países. Ironicamente, são exatamente as terras germânicas os maiores bastiões de resistência à tecnologia, com somente 2 hectares plantados.

A jornalista viajou a convite da Basf

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