Bons preços e demanda global elevam embarques de soja a patamares históricos

Estimulados pelos bons preços da soja, a alta do câmbio e o apetite chinês pelo grão, os produtores brasileiros já comercializaram próximo de 85% da safra, ante uma média de 60% em anos anteriores até este período. E, de acordo com o especialista da consultoria Safras & Mercado para o setor, Luiz Fernando Roque, o momento é propício para travar preços até do que ainda não foi semeado e será colhido somente em 2021.

Assim como buscar certo equilíbrio nas contas do custo de produção que virá pela frente, também impactado pela desvalorização do real, adotado o barter (troca em que o produtor converte sacas em insumos).

As exportações de soja, que já somaram 33 milhões de toneladas no primeiro quadrimestre de 2020 – alta de 32% sobre os 25 milhões registrados no mesmo período de 2019 – tiveram recorde de embarques em abril. Apenas no mês passado, o Brasil vendeu 16 milhões de toneladas para outros países, especialmente à China, mas também registrou alta entre 10% e 15% para outros destinos.

Pelo atual cenário, Roque estima que maio poderá trazer mais um registro histórico no volume destinado aos portos brasileiros.

"Março surpreendeu, abril registrou recorde e maio ainda pode superar o mês passado", projeta o especialista da Safras & Mercado.

A cotação da soja ultrapassa, hoje, os R$ 115,00 no porto, ante menos de R$ 100,00 no início do ano, mas, juntamente com os ganhos com o câmbio, o produtor deverá arcar com mais desembolsos para semear, no segundo semestre, a safra de verão 2020/2021. Para minimizar danos, Roque recomenda fazer travando preços com negociações futuras, por exemplo, e adotar o modelo de vendas e contratos escalonadas do que o agricultor ainda tem disponível para venda.

"Em geral, a recomendação é de que o produtor tente sempre iniciar o plantio com, pelo menos, 30% já negociado. E hoje, no mercado futuro, há preços entre R$ 90,00 e R$ 100,00, o que nunca havia ocorrido com uma antecipação de um ano", analisa Roque.

Para quem teme travar preços agora e perder uma alta ainda maior do câmbio, já que o próprio especialista avalia que o dólar pode passar, em breve, a linha dos R$ 6,00, ele afirma que fechar os negócios nesta faixa é uma oportunidade, e não um risco.

"O produtor nunca vai acertar na mosca. Mas esse é um valor histórico. Risco é quando o produtor pode perder, o que não é caso. Ele estará ganhando de qualquer forma se seguir a regra da venda escalonada", pondera Roque.

Analisando dados recentemente divulgados pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA, em inglês), que projetou a futura safra brasileira em cerca de 130 milhões de toneladas, acima, portanto, da atual, com mais 124 milhões de toneladas, Roque avalia que é uma possibilidade real. Apesar de ser uma projeção bastante antecipada, pela expansão constante da área semeada com oleaginosa no Brasil, ele considera um número plenamente alcançável.

"Isso, claro, também se o clima permitir. O que também é cedo para projetar, mas há indicativo de La Niña para a próxima safra de verão no Brasil, o que costuma ser prejudicial, especialmente para as lavouras do Sul", pondera Roque.

Fonte: Jornal do Comércio