BOI – Alta nos grãos gera quebra de contratos e fila para engordar gado em boiteis

Enquanto agricultores preferem pagar multa para encerrar negócio e pedir preço maior, pecuaristas menores entregam animais para os de maior porte garantirem escala na compra de insumos

Nem mesmo a compra antecipada de grãos para garantir o fornecimento de insumos para alimentação do gado confinado durante o inverno tem sido suficiente para fazer frente ao cenário de escassez de milho e farelo de soja, após os estragos causados pelo clima na safra de inverno 2020/2021. Com os preços das commodities testando sucessivos recordes, muitos produtores de grãos têm optado por pagar a multa pelo não cumprimento desses contratos para aproveitar a valorização dos últimos meses.

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Fazenda Primavera em Santa Monica (PR) visitada pela equipe da Scot Consultoria durante a expedição do Confina Brasil (Foto: Divulgação)

Fazenda Primavera em Santa Monica (PR) visitada pela equipe da Scot Consultoria durante a expedição do Confina Brasil (Foto: Divulgação)

“Isso tem acontecido e não é de hoje. Tem acontecido sempre. Só que, como ultimamente o preço só sobe, eles ficam permanentemente em cima do muro aguardando subir e fazendo a conta se é melhor pagar a multa ou entregar”, conta o presidente da Associação Nacional da Pecuária Intensiva (Assocon), Maurício Velloso.

Segundo ele, a situação tem ocorrido "com certa regularidade". “Infelizmente, é um problema de conduta ética muito mais do que de um problema de alta dos grãos. Então, existem algumas empresas que cumprem rigorosamente o contrato. O ideal é você buscar parceiros que sejam corretos, confiáveis, e que trabalhem dentro da legalidade. Isso é importante”, aconselha o presidente da Assocon.

O problema também tem sido observado pela equipe de analistas da Scot Consultoria durante a expedição “Confina Brasil”. Segundo Alcides Torres, diretor-fundador da Scot, em alguns casos, os agricultores estão cancelando a venda, pagando a multa e ofertando o mesmo produto pelo dobro do preço.

“Um efeito colateral da seca é que, a partir de agora, vamos ter contratos que realmente evitem que a pessoa fuja da obrigação, ou que custe muito caro fazer isso”, avalia Torres, ao apontar os efeitos da quebra da safrinha e da crise hídrica sobre o setor.

Como os custos de produção têm exigido cada vez mais eficiência, ele relata que os confinamentos de pequeno e médio porte têm preferido enviar seus rebanhos para terminação em estruturas maiores, conhecidas como boiteis, onde o produtor paga uma diária pelo período que mantiver os animais confinados. “Com isso, você tem um paradoxo: fila nos boitéis para pôr gado e confinamento vazio de pequeno e médio porte”, completa Torres, ao ressaltar que a previsão da Consultoria para este ano é de estabilidade a ligeira queda no número de animais confinados.

No Sul do Brasil, onde a equipe da Scot visitou 54 confinamentos entre junho e julho deste ano, os custos mais elevados têm levado a aumento também da busca por cooperativas e associações para garantir maior poder de barganha na compra de insumos, além de estimular o plantio de grãos nas áreas com integração. “Essa presença do cooperativismo faz com que a pecuária no Paraná dê um salto vantajoso para esse pessoal”, observa Felipe Dahas, coordenador da expedição, ao destacar o uso da Integração Lavoura-Pecuária no Estado e a sinergia entre as duas atividades.

“É muito encontrado no Paraná a utilização de dejetos em confinamento para fazer a irrigação, a fertirrigação e a adubação com isso. A grande maioria faz isso. E quando a gente olha para os outros Estados não é tão comum isso acontecer”, completa Dahas.

A partir de 26 de julho, a equipe da consultoria percorrerá os Estados de Rondônia, Mato Grosso e Pará, encerrando a expedição em 20 de agosto. O objetivo é realizar um levantamento de 40% do gado confinado no país. “Vamos ver ainda se serão os 40%, se a gente vai passar ou chegar próximo, mas a nossa previsão é essa”, conclui Dahas.

CLEYTON VILARINO

Fonte : Globo Rural

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