Black River conclui compra de usinas do Grupo Ruette

Após dez meses de negociações que envolveram mais de 30 credores financeiros, o fundo de private equity Black River Agriculture Fund 2, da gestora Black River, finalizou a compra das duas usinas de cana do Grupo Ruette, localizadas no Estado de São Paulo, e assume a gestão a partir de hoje. O negócio envolveu um montante de R$ 830 milhões, sendo R$ 530 milhões em assunção de dívidas, como já havia antecipado o Valor, e os R$ 300 milhões restantes, em aportes na operação.

Os credores deram um desconto médio de 38% (ou R$ 320 milhões) sobre o valor total da dívida, de R$ 850 milhões. Mas conseguiram no último desenho da operação dobrar a injeção de capital da Black River nas usinas, inicialmente de R$ 150 milhões. "Houve um equilíbrio. O novo dono vai colocar na empresa R$ 1 para cada R$ 1 de desconto que os bancos deram", disse um credor que preferiu não se identificar.

O passivo renegociado, de R$ 530 milhões, começará a ser pago pela Black River, sem carência, em parcelas semestrais, mas com prazos distintos, de até dez anos, conforme a escolha de cada credor, explicou ao Valor o advogado Joel Thomaz Bastos, do escritório Dias Carneiro Advogados, que representou o Grupo Ruette na negociação.

Três opções foram oferecidas: recebimento à vista, mas com 70% de desconto (recuperação efetiva de 30% do crédito); desconto de 50% e o recebimento dos 50% restantes em cinco anos; e deságio de 25% no valor do crédito, e recebimento em dez anos.

Com sede em Minnesota (EUA), a Black River tem cerca de US$ 7 bilhões sob gestão considerando todos os seus fundos, segundo a provedora de dados Morningstar. Apesar de ser uma subsidiária da Cargill, a Black River capta recursos de terceiros e tem administração independente. A gestão das duas usinas da Ruette – localizadas em Paraíso e Ubarana – será da própria Black River, que começou a montar um time de executivos com experiência para operar o negócio, disse Thomaz Bastos. Isso inclui alguns executivos que já trabalham nas usinas, entre eles, Eduardo Ruette, filho mais novo do ex-controlador, Antonio Ruette.

A nova gestão assume os ativos hoje, dia 4, e vai injetar de imediato R$ 200 milhões no caixa, recurso que será usado para manutenções industrial e agrícola e pagamento de fornecedores em atraso. Os R$ 100 milhões remanescentes, conforme o acordo, entram até o fim do ciclo 2016/17, que começa em abril.

A operação já havia sido aprovada pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). As duas usinas processam juntas 3,5 milhões de toneladas de cana por ano, mas têm capacidade para 5 milhões. A unidade de Paraíso produz também energia a partir do bagaço da cana, com 28 Megawatts instalados.

A família Ruette, liderada pelo octogenário Antonio Ruette, sai do negócio industrial sem receber recursos, mas também sem os R$ 850 milhões de dívidas. Pelo acordo, a família continua proprietária dos cerca de 5 mil hectares cultivados com cana em São Paulo e será fornecedora da matéria-prima às usinas agora pertencentes à Black River. As terras, que haviam sido dadas em aval da dívida das usinas, foram substituídas pela garantia de alienação fiduciária dada pela Black River (ativos e ações das próprias unidades).

Os Ruette e a gestora firmaram um contrato de 21 anos de fornecimento de cana às usinas, indexado pelo modelo Consecana (Conselho dos Produtores de Cana-de-Açúcar, Açúcar e Álcool do Estado de São Paulo), usado na maior parte dos contratos de compra e venda de cana. Estima-se que esse contrato gere uma receita de R$ 3 milhões a R$ 4 milhões por ano à família.

As usinas foram colocadas à venda em abril, após um inesperado pedido de recuperação judicial. O grupo não tinha dívidas vencidas e havia acabado de captar recursos novos. Os bancos credores, liderados pelo Santander, propuseram um acordo, em troca da retirada do pedido de recuperação. O acordo previa a venda das usinas para pagar os credores. O Santander foi o mandatário dessa operação. Os 30 credores financeiros foram assessorados pelo escritório Pinheiro Neto e a Black River, pelo Mattos Filho Advogados.

Fonte: Valor | Por Fabiana Batista | De São Paulo

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