Biólogos trabalham para compensar o efeito de barragens

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Sistema de transposição de peixes: pesquisadores avaliaram fluxo de água em diferentes condições de turbulência

A cachoeira do Teotônio no rio Madeira, em Rondônia, era um obstáculo natural para a migração de peixes. As espécies capazes de superar a força das águas ainda tinham que evitar as zagaias dos pescadores, que se debruçavam sobre o rio em andaimes improvisados, atrás dos grandes bagres da região. A cachoeira ainda estampa cartões postais de Porto Velho, mas não pode mais ser vista; foi inundada pelo reservatório da Usina de Santo Antônio, que começou a operar em janeiro. As usinas do Madeira têm o desafio de garantir que as suas barragens não sejam obstáculos difíceis demais para as espécies que sempre se deslocaram pelo rio.

Um estudo genético com duas espécies de bagres ajudou a redimensionar o problema. A análise do DNA da dourada (Brachyplatystoma rousseauxii) e a da piramutaba (Brachyplatystoma vaillantii) não constatou a prática de homing, comum, por exemplo, ao salmão, que retorna ao local onde nasceu para se reproduzir.

Essa preocupação quanto à ameaça das barragens para o ciclo de vida dos bagres migradores foi uma das razões que causaram atraso no licenciamento ambiental do Complexo do Madeira e que levaram o então presidente Lula a reclamar do Ministério do Meio Ambiente. Jacqueline da Silva Batista, bióloga do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) explica que "tanto a piramutaba quanto a dourada compreendem uma população geneticamente homogênea na Amazônia Brasileira. Com isso, as duas espécies podem utilizar a cabeceira de diferentes afluentes para desovar."

A dourada e a piramutaba são espécies de grande importância comercial na região. Jacqueline pesquisa a genética dos bagres amazônicos desde 1999.

Um estudo encomendado pela Santo Antônio Energia em 2010 observa in loco o comportamento dessas espécies, reforçando os resultados. O trabalho é desenvolvido por Jacqueline, em conjunto com os pesquisadores Cláudio Oliveira, da Unesp de Botucatu, Kyara Formiga e José Alves-Gomes, do INPA. "Não houve diferenciação genética da dourada à montante e à jusante da cachoeira", explica. Caso formassem uma única população no rio Madeira, o impacto da construção das hidrelétricas poderia ser maior. "Não se pode negar que haverá impacto, mas estratégias para minimizá-lo estão sendo executadas", afirma.

Por serem empreendimentos sem precedentes na região, Santo Antônio e Jirau tentam aprender com o rio a melhor forma de lidar com os peixes. Antes de submergir, a Cachoeira do Teotônio deu a sua contribuição à causa dos bagres. Os parâmetros para um sistema de transposição de peixes nas barragens foram obtidos em um canal artificial de 50 metros de comprimento, construído sobre as pedras de Teotônio. Por meio de sensores, pesquisadores avaliaram desde a rugosidade do revestimento ao fluxo de água em diferentes condições de velocidade e turbulência. "O rio tem corredeiras e as espécies que não as superariam na natureza também não devem conseguir passar", explica Antônio Luiz Abreu Jorge, diretor de meio ambiente e sustentabilidade da Energia Sustentável do Brasil.

Fonte: Valor | Por Timóteo Camargo | Para o Valor, de Boa Vista

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