Bancos privados de olho no campo

Fonte: Valor Online | Fernando Lopes | De São Paulo

Claudio Belli/Valor

"Os bancos em geral reconheceram a modernização do setor", diz Segatto

Distantes do campo até o fim dos anos 90, os bancos privados que atuam no país ampliaram sua participação nos financiamentos concedidos a produtores e cooperativas rurais na última década e deverão acirrar ainda mais a disputa por clientes nesse mercado nos próximos anos.

Conforme dados do Banco Central, em 1999 os bancos privados concederam R$ 3,6 bilhões em financiamentos ao segmento, ou 31% de um total de R$ 11,8 bilhões. Naquele ano, os bancos oficiais federais, encabeçados pelo Banco do Brasil, liberaram R$ 7,3 bilhões, ou 61,9% do bolo. Em 2002, a fatia dos privados subiu para 35,7% (equivalente a R$ 8 bilhões). Em 2010, com o Bradesco à frente, o grupo foi responsável por R$ 31,5 bilhões, ou 38,8% de um montante consolidado de R$ 81,3 bilhões.

Ainda que as cooperativas de crédito rural também tenham elevado consideravelmente sua participação nas concessões de financiamento a produtores e cooperativas – sua parte no total passou de 6,7%, em 2002, para 9,4% no ano passado -, os números mostram que foram os bancos privados que mais ganharam terreno dos federais no intervalo.

"Esse crescimento é consistente e continuará sendo no curto, médio e longo prazos", diz Ademiro Vian, diretor da Federação Brasileira dos Bancos (Febraban). Segundo ele, o avanço recente é resultado de fatores macroeconômicos que permitiram um forte crescimento dos depósitos à vista no sistema bancário, alimentando o aumento das exigibilidades rurais, e da melhora do perfil setorial.

Ele lembra que o setor vive uma fase de intensa profissionalização, seja por parte de agricultores, cooperativas e agroindústrias, e que as governanças de uma maneira geral já melhoraram muito. Além disso, as perspectivas de aumento de produção, exportações e renda poucas vezes na história foram tão boas.

Walmir Fernandes Segatto, superintendente de Agronegócios do banco Santander, diz que mesmo as crises de liquidez e renda no campo na última década, em 2004-2005 e em 2008, tiveram seu lado didático. "Foi uma lição para muitos produtores". Segatto, 43 anos, é engenheiro agrônomo e trabalhava no Banespa, que tinha forte participação no mercado de crédito rural, quando este foi adquirido pelo Santander, e tem 21 anos de experiência no setor.

Como no passado mais distante, mas em menor intensidade, as crises recentes diminuíram o apetite dos bancos privados para negócios rurais, mas como as dificuldades estimularam melhores organizações e planejamento e as perspectivas são positivas, o movimento de retomada ganha força, inclusive com o lançamento de novas linhas com juros de mercado, e não apenas com operações focadas naquelas subsidiadas.

"No ciclo passado e no atual [2010/11, os bancos em geral reconheceram a modernização do setor. Como houve uma ampliação da capacidade de tomar crédito, o número de linhas e crescente", afirma Segatto. Ele estima que de 200 mil a 300 dos 1,5 milhão de produtores do país podem ser considerados "profissionais. E observa que a chamada classe média rural está evoluindo e buscando crédito.

"Mesmo os produtores ‘pessoas físicas’ já estão constituindo balanços, o que gera mais confiança e crédito. Os ‘ratings’ melhoram e as dívidas estão sendo liquidadas", afirma o superintendente de Agronegócios do Santander. Entre os privados, o Santander só perde para o Bradesco na concessão de financiamentos a produtores e cooperativas. Conforme Segatto, 60% da carteira do banco é crédito rural com juros subsidiados, frente que inclui linhas de depósitos à vista, principalmente para pessoas físicas, e Funcafé. Os de mais 40% formada por repasses de linhas específicas do BNDES.

O executivo destaca que mais de 160 atividades agropecuárias são atendidas pelo Santander, e que 25% da carteira não tem relação com as oito commodities consideradas principais pelo banco (soja, milho, algodão, cana, café, pecuária, laranja e arroz). Cerca de 70% dos negócios no segmento estão nos Estados de São Paulo, Minas Gerais, Paraná e Rio Grande do Sul.

Devido ao boa fase do campo, Segatto está otimista quanto ao desempenho do Santander no segmento em 2011, particularmente no caso dos repasses de recursos do BNDES. No ano passado, os financiamentos concedidos a produtores e cooperativas com recursos do BNDES/Finame somaram R$ 5,2 bilhões, 225% a mais do que os R$ 1,6 bilhão de 2002.

Nos cálculos de Segatto, são necessários R$ 60 bilhões para suprir o chamado "Custo Fazenda Brasil", e esse montante virá, nos próximos anos, dos bancos privados. Mas o processo de profissionalização do campo e as ferramentas disponíveis às instituições financeiras para atuar nesse mercado terão que evoluir.

"Novos instrumentos foram criados e aprimorados nos últimos anos, como os títulos do agronegócio, e novas linhas de crédito foram criadas", diz Vian, da Febraban. Mas ele atenta que ainda há diferenças no "funding". Os bancos públicos têm acesso a fontes que os privados não têm, como os fundos constitucionais. E mesmo a poupança rural, que até pouco tempo era exclusividade do BB, ainda é pouco acessada.