Bactéria nativa das Américas causa morte de oliveiras na Itália

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Agente patogênico detectado em novembro é ligado à "morte" de uma área de 8 mil hectares de oliveiras próxima a Lecce

Um microorganismo que ataca plantas encontrado na Europa está matando oliveiras centenárias na região de Apulia, no sul da Itália. Os pesquisadores ainda desconhecem o grau de propagação do agente patogênico.

Cientistas encontraram a bactéria nativa das Américas Xylella fastidiosa nas plantas em toda a Província do Lecce, no sul da região de Apulia, e atualmente ampliam a busca para toda a região, disse Anna Maria D’Onghia, diretora de gestão integrada de pestes do Instituto Agronômico Mediterrâneo de Bari.

O agente patogênico, detectado no mês passado, é ligado ao definhamento, até a morte, de uma área de 8 mil hectares de oliveiras próxima à cidade de Lecce, segundo a Agência Europeia de Segurança Alimentar (EFSA, na sigla em inglês). A Apulia é a principal região de cultivo de oliva da Itália, responsável no ano passado por uma produção de cerca de 11 milhões de toneladas, ou 36% da safra nacional.

"É uma área de produção de azeitona muito importante; é claro que isso tem um grande impacto sobre os produtores", afirmou Anna Maria. "O problema é evidente porque as maiores árvores estão definhando. Estamos falando de oliveiras muito antigas". A bactéria está exterminando oliveiras de 500 anos.

O instituto de Bari está testando plantas desprovidas de sinais de contaminação para delimitar uma zona de isolamento protetora. O microrganismo pode ter sido introduzido por meio da importação de plantas ornamentais, segundo Anna Maria. "A Xylella vai para todo lugar; a gama de hospedeiros é muito ampla. Estamos pesquisando até onde o agente patogênico se propagou, ou ainda se propaga, a partir desta área. Normalmente, quando a gente vê as árvores atingidas pela doença, é tarde demais".

O Ministério da Agricultura da Itália disse que está formando uma força-tarefa para delimitar as fronteiras das áreas contaminadas e desenvolver um plano para prevenir nova disseminação. A classe da bactéria que afeta as oliveiras de Lecce é Xylella fastidiosa multiplex, que, ao que se sabe, não atinge videiras nem árvores de frutas cítricas, disse Anna Maria. A subespécie multiplex contamina amêndoas e árvores produtoras de drupas (frutos carnosos com núcleo duro), como pêssego e damasco.

"Essa não deve ser a classe que afeta uvas e frutas cítricas", afirmou Anna Maria. "Digo ‘deve’. A pesquisa está em curso", disse.

A variedade Xylella fastidiosa pode causar a doença de Pierce, que mata as parreiras atingidas, segundo a Universidade da Califórnia. O mal custou aos produtores de uvas do Estado americano US$ 105 milhões ao ano, dos quais US$ 47 milhões em perda de produção e custos de replantio, detectou um estudo realizado em 2012 pela universidade.

A bactéria infecta o xilema, o tecido lenhoso das plantas responsável pelo transporte da água. Todos os insetos europeus que se alimentam da seiva de partes lenhosas devem ser considerados potenciais transmissores, segundo o órgão de segurança alimentar europeu. Anna Maria disse que a bactéria pode ser propagada por várias espécies de insetos conhecidos como cicadelídeos, como a cigarra.

O único procedimento recomendado é extirpar a árvore doente, arrancando-a pela raiz, escreveu Raffaele Baldassarre, membro italiano do Parlamento Europeu, em perguntas encaminhadas à Comissão Europeia, em que procurava saber do braço executivo da União Europeia (UE) qual o montante de ajuda financeira que poderia ser concedido aos produtores afetados. O número de plantas hospedeiras na Europa não é conhecido porque muitas espécies terão contato com a bactéria pela primeira vez, escreveu a agência europeia.

O microrganismo é "uma ameaça muito grave" à Europa, escreveu a Organização Europeia e Mediterrânica para a Proteção das Plantas (EPPO, em inglês) em alerta on-line. A bactéria bloqueia o transporte de água e de nutrientes minerais das plantas, embora "numerosas" plantas silvestres como gramíneas podem portar Xylella fastidiosa sem apresentar sintomas, informou o grupo, sediado em Paris.

As oliveiras que morreram na Apulia também apresentavam diversos tipos de fungos.

"Não há registro de uma erradicação bem-sucedida da Xylella fastidiosa após ela se instalar no campo, devido ao grande espectro de hospedeiros do agente patogênico", escreveu a EFSA. O órgão disse que os controles devem se concentrar em plantas vivas e em insetos vivos transportados com as plantas. A doença "pode ser um grande problema", com "um enorme alcance", disse Francesco Serafini, diretor do departamento ambiental do Conselho Internacional do Azeite de Oliva, sediado em Madri. (Tradução de Rachel Warszawski)

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Fonte: Valor | Por Rudy Ruitenberg | Bloomberg

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