Aumento da oferta de frango pressiona Seara

Anna Carolina Negri/Valor

Gilberto Tomazoni, executivo-chefe de operações da JBS: ampliação da oferta pode afetar os preços de exportação

As perspectivas para as agroindústrias de frango do país continuam negativas, sinalizou ontem o executivo-chefe de operações da JBS, Gilberto Tomazoni. Em teleconferência com analistas para comentar os resultados do segundo trimestre, o executivo afirmou que a Seara, que reúne os negócios de aves, suínos e alimentos processados da empresa no Brasil, enfrenta um cenário adverso que poderá ficar mais difícil.

Além dos obstáculos para reajustar os preços e assim repassar a alta de custos com milho – o principal ingrediente da ração -, os alojamentos de pintos de corte (indicador da produção futura de carne de frango) no Brasil voltaram a crescer, o que poderá gerar pressão adicional no mercado, conforme o executivo da JBS.

Segundo ele, esse aumento da oferta de frango no Brasil poderá comprometer até o aumento de preços da carne de frango que os exportadores do país haviam conseguido no mercado internacional. "Temos visto que os alojamentos começam a crescer e isso pode ser uma preocupação", afirmou.

No mercado doméstico, a Seara enfrentou dificuldades para reajustar os preços no segundo trimestre, disse Tomazoni. Quando divulgou os resultados de janeiro a março, em maio, o executivo afirmou que pretendia promover um reajuste médio de 5% entre abril e junho. O repasse médio, porém, ficou em 3%, mesmo que em junho tenha ficado mais "intenso", como acrescentou na teleconferência o presidente do conselho de administração e diretor de relações com investidores da JBS, Jerry O’Callaghan.

Devido ao excesso de oferta – provocado em parte pelo embargo europeu à concorrente BRF -, as dificuldades de repasse de preços e a greve dos caminhoneiros, o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) da Seara caiu 68% no segundo trimestre em relação ao mesmo período de 2017, para R$ 113,8 milhões. Já a receita somou R$ 4,1 bilhões, queda de 5,4% na mesma comparação.

De acordo com Tomazoni, para equilibrar a situação, a empresa teria de fazer um reajuste de 7% nos preços dos produtos da Seara. Mas, diante do cenário adverso, o executivo não deixou claro se o objetivo será cumprido neste trimestre.

Na contramão do que ocorre com a Seara, os negócios da JBS no mercado de carne bovina dos EUA têm perspectivas amplamente positivas, reforçou ontem, também na teleconferência, o CEO da JBS USA, André Nogueira.

O bom momento do divisão americana de carne bovina, que concentra mais de 40% das vendas da JBS, animou os analistas no pregão de ontem. Na bolsa, as ações da empresa subiram 2,8%, para R$ 9,17, na contramão do Ibovespa. O índice caiu 1,9% ontem, fechando a 77.077 pontos.

O cenário positivo nos EUA é sustentado pela oferta de bovinos, que deve crescer ao menos até 2021, segundo Nogueira. Além disso, a demanda externa pela carne bovina americana deverá seguir firme, puxada pelas importações do Japão e da Coreia do Sul. Nos EUA, a economia aquecida também estimula o consumo de carne bovina. "Não vemos nenhum sinal de demanda mudando. A demanda continua muito forte nos mercados doméstico e de exportação", afirmou Nogueira.

Questionado por um analista sobre o patamar de margem Ebitda que pode ser obtido pelo negócio de carne bovina nos EUA no próximo ano, o executivo concordou que uma margem de 8% – bem acima de média histórica – é factível. Esse número foi calculado a partir das projeções da concorrente americana Tyson Foods, que estima margem operacional de 6%. "Não é nada absurdo", afirmou o executivo.

No segundo trimestre deste ano, a unidade de negócios da JBS USA Beef, que também reúne as operações no Canadá e na Austrália, reportou um lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) de US$ 570,1 milhões, aumento de 76% na comparação com o mesmo intervalo do último ano.

Fonte: Valor | Por Luiz Henrique Mendes | De São Paulo

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