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Aumento da demanda provoca uma "Revolução no leite"

Fonte:  Globo Rural

Baixa margem de lucro do setor obriga as fazendas a aumentar a escala e investir na produtividade. Grandes como a Agrindus trabalham 24 horas por dia

por Sebastião Nascimento | Fotos Valdemir Cunha

Editora Globo

Roberto Jank Jr. e suas vacas holandesas puras, que produzem uma média de 32 litros ao dia

A Agrindus não para. Em três turnos, as 1.400 vacas puro sangue holandês produzem, em média, 32 litros por dia em sessões que duram sete horas. É só multiplicar: são cerca de 45 mil litros ao dia, 1,344 milhão no mês, e uma enxurrada no ano, mais de 16 milhões de litros. “Nos pequenos intervalos entre as ordenhas, é feita a limpeza das tetas dos animais e das instalações. Aqui não há descanso”, afirma Roberto Jank Júnior, de 46 anos, agrônomo e um dos proprietários da Agrindus S/A, fazenda de Descalvado, no interior de São Paulo, que completou 66 anos e virou referência em termos de tecnologia e alta produtividade na exploração leiteira.
A propriedade dos Jank ocupa o segundo lugar entre os maiores produtores do Brasil – fica atrás só da Bela Vista, que pertence ao “rei do leite”, o mineiro Olavo Barbosa, que capta 23 milhões de litros ao ano.
São fazendas de grande porte, como a Agrindus, junto com as de tamanho médio, as responsáveis por quase 80% do leite produzido no Brasil, que alcançou 30,5 bilhões de litros em 2010. Segundo Jorge Rubez, presidente da Leite Brasil, seus proprietários representam 11% dos criadores de gado de leite. A tendência, aposta o dirigente, é que a concentração da produção cresça ainda mais.

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“Há, hoje, 1,2 milhão de produtores, entre grandes, médios e pequenos, número que deve cair para 600 mil nos próximos quatro a cinco anos. O setor vai se profissionalizar, até porque a indústria paga melhor pelo leite de ótima qualidade e o consumidor tornou-se mais exigente. Essa mudança em busca da excelência é lenta, mas virá”, diz Rubez.
E dos 30,5 bilhões de litros de 2010, o que torna o Brasil o sexto maior produtor mundial, cerca de 20% são provenientes dos chamados informais, que não possuem tecnologia e tiram leite de vacas de baixa produtividade. “A exclusão se dará nesse segmento, pois o consumidor percebeu que é um produto até perigoso para a saúde. Além disso, eles não terão como concorrer num mercado altamente competitivo, que trabalha com margens pequenas”, afirma Rubez. Ele lembra que o Brasil chegou a ter 1,8 milhão de criadores. “O enxugamento é inevitável. O número de grandes e médias propriedades deve saltar de 11% para mais de 50% em cinco anos.”

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Funcionários gerenciam a ordenha na Agrindus, cujos produtos receberam a severa certificação kasher, dos judeus ortodoxos

Historicamente cheia de altos e baixos e misturando nichos de alta tecnificação com outros de manejos rudimentares, a atividade leiteira, no entanto, cresce. De 1980 a 2010, a produção brasileira triplicou e anualmente o país aumenta de 4% a 5% o volume recolhido. “Isso significa 1,5 bilhão de litros. É um crescimento fantástico, talvez o maior do mundo”, ressalta Roberto Jank. Além disso, o mercado de lácteos faturou, em 2010, R$ 44,5 bilhões no país – 17,1% a mais em relação aos R$ 38 bilhões de 2009. Ficou atrás apenas da carne e do açúcar, cujos resultados são engordados pelas exportações, enquanto o leite, predominantemente, abastece o mercado interno, com 99% de suas receitas originadas no Brasil. Há previsão de acréscimo na litragem e no faturamento agora em 2011, apesar dos problemas climáticos.
Especialistas entendem que o leite vive uma fase de transição. “Não se justifica mais trabalhar sem eficiência. Vêm aí transformações profundas”, diz Marcelo Carvalho, analista de mercado do MilkPoint. Segundo ele, a tendência é que fazendas como a Agrindus aumentem a produção e, ao mesmo tempo, que os pequenos pecuaristas que permanecerem ativos se profissionalizem. Carvalho cita como exemplo os fazendeiros que aderiram aos “bem-sucedidos” projetos Balde Cheio, da Embrapa de São Carlos, e Educampo, do Sebrae, coordenado pelo professor Sebastião Teixeira Gomes, da Universidade Federal de Viçosa, em Minas Gerais. “Eles foram resgatados da margem e inseridos no mercado junto com suas famílias”, diz Carvalho.

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Artur Chinelato, idealizador do Balde Cheio, provou ser porssível ganhar dinheiro nas montanhas íngremes do Vale do Paraíba

A Agrindus fabrica seu próprio leite tipo A e verticaliza a produção com derivados como iogurte e creme de leite. Todos ostentam a marca Letti. Daqui a seis meses, o grupo vai colocar na praça um novo produto, o queijo Minas Frescal. Segundo Roberto Jank, que conduz a Agrindus em conjunto com o pai, de 72 anos, e o irmão Jorge, de 42, atualmente são envazados 25 mil litros de leite A, os quais, junto com os derivados, são distribuídos em mais de 50 cidades por representantes da empresa. “Em sete municípios, inclusive na capital, São Paulo, entregamos diretamente nos domicílios”, diz Roberto Jank. A indústria paga ao redor de R$ 2,25 pelo litro que sai da porteira, enquanto o custo para produzi-lo é de R$ 1,80. O pecuarista lembra que, em 2007, quando deu início ao leite A, eram apenas 2 mil litros ao dia. “ O que nos incentiva é a forte elevação do consumo per capita de lácteos no Brasil, que saltou de 100 litros por ano para 160 litros no prazo de uma década, graças à melhora do poder de compra da população”, diz.
No Nordeste, por exemplo, nos últimos quatro anos, o consumo de lácteos cresce em ritmo chinês – 11% ao ano. Isso faz a Itambé, central de cooperativas de Minas Gerais, a programar a abertura de uma fábrica no Ceará, onde vai investir R$ 60 milhões. “O governo do Ceará vai participar, fomentando os produtores a melhorar sua produtividade. Vamos precisar de uma rede de 500 fornecedores de leite para essa futura unidade”, adianta seu presidente, Jaques Gontijo. AItambé já abastece a região nordestina e pelo menos 40% de sua receita vem de lá.

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Com auxílio da filha Diovânia (acima), que vai cursar veterinária, Donizetti Correa (foto abaixo) quer elevar a média de suas vacas para 12 litros ao dia

Em todo o mundo, segundo Roberto Jank, a demanda também vai crescer. Estudo da Tetra Pak Dairy Index, que acompanha as tendências da indústria de laticínios, constatou que o salto será de 30% até 2020. A demanda por leite branco, aromatizado, iogurte, leite condensado, entre outros, deve ir de 270 bilhões de litros, em 2010, para perto de 350 bilhões no final desta década, auxiliada pelo crescimento econômico, principalmente nos países emergentes, que vivem um processo de urbanização com forte ascensão da classe média.
Esse salto espetacular faz a Agrindus elevar para 1.800 suas vacas em lactação e expandir o volume para 20 milhões de litros ao ano, ganhando mais escala. Com esse objetivo, está construindo um novo free stall, que é um sistema de confinamento próprio dos grandes produtores, e outra sala de ordenha.

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O grupo não se limita ao leite e seus derivados, diversificando com suco de laranja, gado de corte, frango e agricultura, opção que pode ser creditada à histórica insegurança do setor, o que leva os produtores a não colocar todos os ovos na mesma cesta. Também confina boi (1.200 cabeças ao ano) e frango e foi selecionado pelo Pão de Açúcar para abastecer as gôndolas do supermercado com um tipo exclusivo de leite A, o Taeq, além do creme de leite Qualita. A fazenda dos Jank planta também milho para silagem, que é servida ao gado.
A obsessão pela qualidade levou a Agrindus a ser a única no Brasil do setor leiteiro a receber a certificação Kasher. O certificado atesta que os produtos obedecem a normas específicas que regem a dieta judaica ortodoxa, explica Jorge Jank. “O documento é mundialmente reconhecido e atribuído como sinônimo de controle máximo de qualidade”, diz. E a vigilância é severa. Rabinos espalharam 16 câmeras pelas áreas de produção e fiscalizam ao vivo a ordenha de São Paulo. Os judeus são compradores fiéis dos produtos da Agrindus, diz Jorge.
Outro trunfo da Agrindus é a alta produtividade. Em um hectare, consegue gerar 30 mil litros ao ano com o gado confinado, enquanto no Brasil a média é irrisória – apenas 1.500 litros. Roberto ressalta que o futuro da pecuária está na intensificação. “Além do ganho econômico, tem o aspecto da sustentabilidade, pois menos área é ocupada.” O fazendeiro observa que grandes extensões não são determinantes para o êxito da atividade leiteira. “Conheço áreas de dimensão modesta nas quais os pecuaristas conseguem produtividade por hectare quase semelhante à da Agrindus, graças a projetos como o Balde Cheio, que recuperou a confiança de quem não acreditava mais em nada”, diz.
Foi o que aconteceu com Donizetti Correa, de 55 anos, proprietário do Sítio Cachoeira, no Distrito de Catuçaba, em São Luiz do Paraitinga (SP), que chegou a pensar em desistir do leite e mudar para a pecuária de corte, desanimado com a baixa produção. Ele tirava 70 litros de leite por dia em uma ordenha, com 25 vacas mestiças de pouca aptidão leiteira – algumas eram até mais voltadas para o corte –, numa área de 70 hectares. Conseguia a média inexpressiva de 2,8 litros por cabeça. Pudera, pois o solo era fraco e a samambaia virou praga. “Cheguei a perder 25 animais intoxicados por essa planta”, lembra.
Em 2003, Correa foi convidado a participar do Balde Cheio, coordenado pela Cati (Coordenadoria de Assistência Técnica Integral) de Pindamonhangaba em parceria com a prefeitura de São Luiz do Paraitinga. Veio a virada. Hoje, o sítio alcança a produção diária de 170 litros com 18 fêmeas e a média saltou para quase dez litros por vaca, afirma Donizetti, que estava satisfeito com o preço recebido pelo litro no mês passado (R$ 0,75 livre).
O programa Balde Cheio foi criado pela Embrapa de São Carlos (SP). Quem o idealizou e o coordena são os pesquisadores Artur Chinelato e Luiz Monteiro Novo e o professor Vidal Pedroso de Faria, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo. Chinelato explica que o projeto transfere tecnologia, treinamento e capacitação de técnicos utilizando uma propriedade como se fosse uma sala de aula. “Nós procuramos mostrar ao técnico e ao extensionista que visitam as fazendas como argumentar e propor soluções para o produtor”, diz ele. Recuperar a autoestima do sitiante é uma das premissas básicas. Segundo Chinelato, o Balde Cheio só não chegou ainda ao estado de Roraima, abarcando 600 municípios em todo o Brasil.
O pesquisador informa que o fazendeiro deve concordar plenamente com as mudanças preconizadas. Donizetti topou e hoje é considerado um exemplo por Chinelato. Ele reverteu a situação melhorando a qualidade das vacas, a parte sanitária, dividiu a área em piquetes, fez cerca elétrica e investiu num tanque de resfriamento de 600 litros – com fé no futuro. Além disso, passou a ordenhar mecanicamente as vacas duas vezes ao dia e plantou tifton e napiê ao lado do estábulo. “O piquete irrigado fica próximo à ordenha, facilitando o manejo”, afirma ele, que antigamente mergulhava na madrugada munido de uma lanterna de querosene e subia o morro de 300 metros em busca das reses para a ordenha.

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O fazendeiro conta que conseguiu produção de 10 mil litros por hectare em 2010. Detalhe: dos 70 hectares, somente dez estão ocupados com o leite; o restante virou reserva. Ele, que não tinha leitura e escrita, sentiu necessidade de ficar sintonizado com o progresso da atividade, que exige conhecimento. Passou a frequentar um curso de alfabetização e, em um ano, se tornou fluente. Agora, quando há palestras e debates sobre assuntos do dia a dia da pecuária, Donizetti é presença certa.
O fazendeiro não consegue controlar a emoção na presença da filha Diovânia, de 19 anos. É ela quem administra a propriedade. Receita, despesa, controle leiteiro, cio da vacas, tudo vai para a planilha. Diovânia criou amor pela pecuária e estuda com o pai a maneira de equilibrar os recursos para que possa cursar veterinária e dar continuidade ao trabalho na terra. “Eu gosto daqui e admiro demais o esforço de meu pai”, diz a menina, olhando pensativa para as montanhas íngremes do sítio, topografia característica daquele pedaço do Vale do Paraíba.
Donizetti pretende aumentar a média de suas vacas para 12 litros ao dia. A média nacional é de cinco litros ao dia. “Ele segue à risca as indicações do Balde Cheio e reúne todas as condições para incrementar a produtividade”, afirma Fabrício Chaves, secretário da Agricultura local e que dá assistência ao Sítio Cachoeira.
No estado de São Paulo, os espaços para a pecuária são cada vez menores, o que obriga as fazendas a melhorar a performance. “Terra cara e opção por cana e soja fizeram o leite recuar”, afirma Jorge Rubez, da Leite Brasil. E esse cenário não muda. Crescimento para valer é no Rio Grande do Sul, que ocupa o segundo lugar no ranking dos maiores produtores, com cerca de 3,6 bilhões de litros ao ano. São Paulo, que já esteve lá em cima na tabela, é hoje o sexto, com 1,5 bilhão de litros, enquanto Minas Gerais conserva a ponta, somando 8,2 bilhões de litros. “No Rio Grande do Sul, as propriedades são pequenas, familiares e bem organizadas. E lá não tem cana”, diz Rubez.
Outro sintoma das mudanças no leite: a Embral, principal leiloeira do setor, que fazia de 50 a 60 pregões por ano, hoje organiza 100. “As vendas, antes concentradas em São Paulo e Minas, se espalharam por todo o Brasil, principalmente pelo Nordeste”, afirma Leonardo Beraldo, diretor.
Maurício Nogueira, diretor da paulista Sigma Consultoria, enfatiza que 2011 está sendo bom para o produtor. “O mercado do leite completou 12 meses de alta ininterrupta para os pecuaristas.” Segundo ele, em valores nominais, no último mês de julho, os preços pagos pelo litro foram 19,4% superiores aos de um ano atrás. No estado de São Paulo, onde o volume captado recuou, a cotação média por litro avançou 2,79%, atingindo R$ 0,925. É a média mais alta registrada neste ano.
Mas 2011 foi marcado por uma decisão que coloca uma pedra no caminho da modernização da pecuária de leite. Foi a prorrogação, pelo governo, da Instrução Normativa 51, cujas regras regem a qualidade do produto em todo o território. A norma estava prevista para 1º de julho, mas foi adiada para o ano que vem. “Foi um banho de água fria. Tão gelada quanto o orvalho dos primeiros dias de julho”, filosofa Maurício Nogueira. Com ele concordam Jorge Rubez e Roberto Jank.

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