As promessas de reforma do novo ministro da Agricultura

Fonte: Valor

A declarada intenção do novo ministro da Agricultura, o deputado gaúcho Mendes Ribeiro, de reestruturar o carcomido ministério e de reposicioná-lo politicamente na Esplanada parece indicar um bom caminho para recuperar o prestígio perdido pela pasta ao longo de anos de desidratação pública.

Relegado ao nicho da representação quase exclusiva de grandes proprietários rurais, o ministério tem sido privado de funções vitais, como a formulação da política agrícola, que poderiam, por exemplo, poupar o Tesouro Nacional dos altos custos de sucessivas renegociações de dívidas rurais. Além disso, a pasta cedeu a outras instâncias parte de suas atribuições originais, como a agricultura familiar, a extensão rural, a pesca e até mesmo a execução da Política de Garantia de Preços Mínimos (PGPM), agora executada também pelos ministérios do Desenvolvimento Social e do Desenvolvimento Agrário.

A estrutura da Embrapa, essencial para os avanços da agropecuária nacional, esteve a ponto de migrar para a alçada do Ministério da Ciência e Tecnologia, aproveitando-se este de um momento de fraqueza daquele.

Mendes Ribeiro fez essas constatações e alertas em entrevista publicada ontem peloValor. Ao mesmo tempo, revelou contar com o auxílio do empresário Jorge Gerdau, da Câmara de Gestão e Competitividade, e de especialistas do Banco do Brasil (BB) para melhorar a gestão do ministério. Ambos os movimentos são relevantes ao denotar discernimento e compromisso público.

Mas há dois casos que o novo ministro já poderia ter solucionado nestes 29 dias à frente da pasta: a substituição da diretoria da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e a efetiva derrubada do embargo imposto há cem dias pela Rússia contra as carnes brasileiras.

Na Conab, um recente escândalo de desvios de dinheiro e acusações de corrupção derrubaram o então ministro Wagner Rossi, um nome da confiança do vice-presidente Michel Temer, o que maculou a imagem da estatal. Ali, os principais cargos seguem loteados entre partidos e figurões políticos e a situação está a exigir atitudes mais drásticas do novo ministro, com afastamentos e demissões, além da cobrança judicial de eventuais recursos desviados. Não está claro se é o vice-presidente que está resistindo a ceder para manter ainda espaços de poder político na pasta.

No prolongado episódio do embargo russo às carnes brasileiras, ficou evidente a urgência de uma completa reformulação na Secretaria de Defesa Agropecuária. Vítima de recorrentes embates por espaço político, a secretaria mais importante do Ministério da Agricultura sofre com disputas internas e ingerências partidárias.

Soma-se aos dois casos a volta do fantasma da febre aftosa, que ressurgiu no interior do Paraguai, ameaçando o rebanho bovino dos Estados de Mato Grosso do Sul e Paraná. Os estragos potenciais da aftosa são imensos, e largamente conhecidos da economia brasileira, como se viu há seis anos exatamente nesses dois Estados fronteiriços.

Amigo de longa data da presidente Dilma Rousseff, o ministro Mendes Ribeiro goza de uma proximidade com o núcleo do poder que, em tese, lhe confere autonomia e autoridade para adotar as medidas urgentes e operar as mudanças necessárias. Ao afirmar que "não tem o direito de errar", exatamente por suas relações de proximidade absoluta da presidente Dilma, Mendes Ribeiro assumiu publicamente o dever de realizar uma serena mas radical e eficiente alteração nos padrões éticos e profissionais no Ministério da Agricultura.

Aliás, tão bem-vinda quanto a promessa de "limpeza" interna feita pelo novo ministro, o que deve blindar a pasta de novos escândalos e reduzir as críticas do setor privado em relação à inépcia técnica, é a propalada recomposição do seu poder de influência no governo. Mendes Ribeiro colocou a "intervenção política" como algo "extraordinariamente importante" em sua função. Originário de um Estado de forte base agropecuária, o ministro transita desde seu primeiro mandato na Câmara, em 1995, entre os vários setores da economia, de forma ampla, sem confinamentos. Precisamente por isso, sabe da relevância do agronegócio para o equilíbrio das contas nacionais, a preservação do meio ambiente e a garantia de comida farta e barata ao consumidor.

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